Eu sou canhoto

Eu sou canhoto

Sim, eu sou canhoto, qual o problema?

Não escrevo com a esquerda,mas jogo razoavelmente bem com a perna canhota.

Às vezes treino a mão esquerda pra fazer as mesmas coisas que a direita faz muito bem,

inclusive aquelas que me levaram a delírios surreais de pornografias juvenis.

O lado esquerdo do meu corpo funciona bem, inclusive o do cérebro.

Não tenho problemas em discernir o certo do errado, o sem-quer do intencional,

o maduro do verde, o negativo do positivo.

Sou a favor da distribuição de bens e contra a concentração das riquezas nas mãos de poucos.

Sou contra preconceitos e discriminação sempre, embora tenha os meus contra aqueles que alimentam ódios, injustiças e outras coisinhas prejudiciais à saúde.

Sou contra as poucas oportunidades que fazem os menos abastados se degladiarem por migalhas…Sou a favor de muitas oportunidades.

Sou contra aqueles que defendem seus exploradores porque ainda não foram expostos à luz da sabedoria e acham mesmo que injustiças não devem ser reparadas.

Sou contra aqueles que não aceitam porque não entendem as cotas…

Sou contra aqueles que defendem os opressores na vã filosofia de estar defendendo seus próprios direitos quando na verdade defendem aqueles que roubam oportunidades.

Sou contra aqueles que se acham únicos merecedores de privilégios.

Sou contra patrões que pagam merrecas aos seus funcionários.

Sou contra preços absurdos praticados no comércio.

Sou a favor do Amor, da Força de Resistência, da Voz que defende os indefesos, da Mão que se estende aos necessitados, dos Braços que abraçam as causas justas.

Não posso dizer que eu pratico integralmente minhas ideias, mas continuo tentando…

Continuo tentando vencer a inércia que me cerca, tentando seguir os passos que considero no caminho certo.

Sou a favor da Humildade, da Lucidez, da Felicidade, da Justiça.

Sou também a favor de uma mais justa divisão de neurônios,

parece que alguns receberam pequenas cotas destas importantes células.

Espero que a minha cota esteja na medida certa.

Paranoia

Paranoia

Leonardo Sakamoto

Recebi de um amigo um meme que está circulando nas redes com insultos a notórios comunistas comedores de criancinhas, consumidores de caviar, hipócritas usuários de smartphones, gayzistas destruidores da família como Gregório Duvivier, Jean Wyllys, Maria do Rosário e este que vos escreve – que a terra, um dia, há de comer. E se empanturrar.

Até aí, nada de novo. Como já disse aqui, memes não doem. Para falar a verdade, adoro memes. O que dói é a maldita falta de criatividade de muitos deles.

Mas, nesse meme, incluíram também os jornais Folha de S.Paulo, Zero Hora e Estado de S.Paulo na lista de fontes de informação esquerdopatas.

A princípio isso seria um conteúdo equivocado de algum desavisado – a rede está cheia de gente com muita energia para gastar e sem muito o que fazer. Mas devo confessar que tenho visto, nos últimos meses, cada vez mais mensagens afirmando que veículos tradicionais fazem o jogo da esquerda.

Cada um pode e deve ter sua opinião. O país é livre. Pelo menos, por enquanto.

Mas de certa forma, devido a casos assim, consigo entender por que os ETs nunca fizeram contato com a gente. Devem achar que não há vida inteligente na terceira rocha transladando o sol. Talvez, entre golfinhos.

Parte da esquerda que afirma que a Folha de S.Paulo, por exemplo, é “um folhetim reacionário” talvez não faça ideia que uma parte da direita, muito maior que ela, diz que o periódico é “um panfleto comunista”.

Há, é fato, um grupo que sabe bem posicionar a voz de cada veículo de comunicação no espectro político-ideológico. Dizem que esses jornais são de “extrema esquerda” porque querem forçar, através da pressão e do constrangimento, que os veículos produzam mais análises à direita para se provarem imparciais. Infelizmente, não é todo mundo que tem sangue frio para receber críticas, analisa-las como infundadas e seguir de acordo com sua linha editorial.

Por outro lado, é um tanto quanto triste perceber que há quem não consiga diferenciar posições diferentes.

Um estudo conduzido pelo Instituto Paulo Montenegro e pela ONG Ação Educativa mostrou que uma fatia de apenas 8% dos brasileiros em idade de trabalhar é considerada plenamente capaz de entender e se expressar por meio de letras e números.

Segundo a pesquisa, esse indivíduo é capaz de compreender e elaborar textos de diferentes tipos, como mensagem (um e-mail), descrição (como um verbete da Wikipedia) ou argumentação (como os editoriais de jornal ou artigos de opinião), além de conseguir opinar sobre o posicionamento ou estilo do autor do texto. E esse último ponto é o que nos interessa aqui.

Os quatro personagens do meme, concordando ou não com eles, podem ser considerados militantes do pensamento de esquerda em suas áreas de atuação. Afirmam-se como tais. Já os editoriais dos jornais citados podem ser avaliados como liberais ou conservadores, dependendo do ponto de vista que adotam do que deva ser o papel a ser desempenhado pelo Estado ou os limites de liberdade comportamental que os indivíduos e grupos podem ter.

Contudo, parte dos seres humanos não consegue diferenciar posicionamentos divergentes do seu. Para eles, todo o pensamento que está à sua esquerda é igual. Ou seja, comuna.

Da mesma forma, para tantos outros, tudo o que está à sua direita é igual. Ou seja, reaça.

É claro que, entre os comentaristas dos memes já citados, havia quem demonstrasse prazer e júbilo com intervenções militares, o assassinato de opositores e a declaração de guerra a países vizinhos. Ou seja, há um problema cognitivo envolvido. Quiçá uma sociopatia ou psicopatia latente. Ou falta crônica de ser abraçado pela mãe e pelo pai na infância. E, além disso, conteúdo estridente que chama à guerra têm mais audiência – audiência que conteúdo moderado que chama ao diálogo não tem.

A responsabilidade sobre esse tipo de visão pitoresca dos fatos reside não apenas em uma formação política distorcida e incompleta baseada no consumo de informação de baixa qualidade e na incapacidade de encarar que o mundo não se resume a bem e mal.

Mas também em uma educação até agora ineficaz para fornecer instrumentos para que cada um possa separar o joio do trigo e em um debate público de qualidade, em que possamos reconhecer diferenças e, através do embate sadio de ideias, evoluir.

Como sempre dizemos por aqui, falta amor no mundo, mas falta interpretação de texto.

Contudo, um jornalista experiente, do alto de seus oitenta e poucos anos, me deu outra avaliação sobre isso: “Não é alucinação, delírio ou loucura. É paranoia”.

Fonte: Blog do Sakamoto

 

É preciso “coragem” para chamar uma mulher de “vaca” da janela do prédio

É preciso “coragem” para chamar uma mulher de “vaca” da janela do prédio

Leonardo Sakamoto

Durante o pronunciamento de Dilma Rousseff, em cadeia nacional de rádio e TV, na noite deste domingo (8), um panelaço foi ouvido em várias cidades brasileiras. Em São Paulo, o barulho foi grande em bairros ricos como Higienópolis, Jardins, Itaim Bibi, Perdizes, Vila Madalena, Morumbi. Por outro lado, menos se ouviu em bairros mais pobres, como Capão Redondo, Itaim Paulista, Cidade Tiradentes e Grajaú, mostrando que a periferia ainda não entrou forte nos protestos.

Particularmente, não gostei do pronunciamento. Achei que não respondeu às principais indagações sobre a condução do seu governo. E não estou falando apenas dos casos de corrupção, mas sim de questões de manutenção de direitos trabalhistas e do desenvolvimento econômico.

E, particularmente, não tenho nada contra vaias (a menos que sejam durante a execução de hinos nacionais de outros países em jogos de Copa do Mundo – aquele episódio foi ridículo…). Também não tenho nada contra panelas que estrilam (só espero que se forem de teflon, que tenham usado colher-de-pau, porque risca).

Essas coisas fazem parte da democracia. E políticos, se gostam de elogios, devem aprender a conviver com críticas.

Mas é preciso muita coragem para gritar a plenos pulmões que alguém é “vaca” da janela do apartamento, com todos os vizinhos e os transeuntes na rua olhando.

Coragem ou a certeza de que nada vai acontecer. Porque talvez a pessoa saiba que vivemos em uma sociedade misógina, que premia esse tipo de comportamento. Uma sociedade que é incapaz de fazer críticas ou demonstrar insatisfação e indignação sem apelar para questões de gênero.

Chamar de “vaca” não é fazer uma análise da honestidade e competência de alguém que ocupa um cargo público e sim uma forma machista de depreciar uma mulher simplesmente por ser mulher. De colocá-la no seu “devido lugar”, que é fora da política institucional.

E isso vale para qualquer mulher. De Luciana Genro à Roseana Sarney, de Marina Silva à Kátia Abreu. Pois a origem da truculência masculina percorre todo o espectro político. Da esquerda à direita.

O significado de “vaca” que os ignóbeis usam não remete aos simpáticos ruminantes. Se assim fosse, seria apenas especismo da minha parte reclamar da comparação. Mas o termo, neste caso, quer rotular através de uma crítica moral sobre um comportamento sexual atrelado a um gênero. Tanto que a versão masculina (“touro”) não é depreciativo, pelo contrario.

É meio ridículo explicar a adultos que mulheres, em nenhuma hipótese, devem ser criticadas por esse ponto de vista. Ou chamadas de “prostitutas” como xingamento genérico a qualquer comportamento em desacordo com o que se “espera” de uma “mulher de bem”. E que prostitutas continuem a serem reduzidas a xingamento e não tratadas com o mesmo respeito despendido a qualquer outra trabalhadora. E que alguém ainda tenha a cara-de-pau de usar a expressão “mulher de bem”. E que eu esteja escrevendo um texto sobre isso a esta hora, em um domingo à noite, quando poderia estar assistindo aos gols da rodada.

Fico imaginando se alguns dos marmanjos e mesmo das mulheres que gritaram “vaca” da janela de casa, celebraram com suas mães, esposa e amigas, algumas horas antes, o Dia Internacional das Mulheres, comemorado neste 8 de março.

A quantidade de mulheres na política, independentemente de sua orientação ideológica, infelizmente é pequena. Mas elas também estão sub-representadas como CEOs, executivas, gerentes, síndicas de condomínios. Isso sem falar das chefias de redação. E o Judiciário ainda transpira machismo, haja visto as interpretações distorcidas proferidas por arautos da masculinidade de toga sobre a Lei Maria da Penha.

Como já contei aqui neste espaço, nas manifestações de junho de 2013, abordei educadamente um rapaz que carregava um cartaz chamando Dilma de “vaca”. Pedi desculpas pela intromissão, mas expliquei que o protesto dele seria muito mais legítimo se ele usasse um termo para criticá-la que não fosse tão machista. Poderia questionar a idoneidade, a moral, a competência, a capacidade para o cargo e um sem número de coisas. Ele entendeu, ficou sem graça e disse que tinha escolhido só porque rimava com o restante da ideia.

Contudo, um senhor mais velho que o acompanhava afirmou que ela era mesmo uma “vaca”. Ele disse que sabia disso porque que era professor universitário de história e havia estudado a vida de Dilma e podia atestar que ela é uma “vaca” (WTF?). As novas gerações até tentam, mas o ranço de naftalina insiste em manter os direitos como artigo de luxo.

É o que eu já disse aqui antes: todos nós, homens, de esquerda, de direita, de centro, somos sim inimigos até que sejamos educados para o contrário. E tendo em vista a formação que tivemos, é um longo caminho até alcançarmos um mínimo de decência para com o sexo oposto. E não confundir o justo protesto com o bizarro machismo.

(E para quem tem dificuldade estrutural com interpretação de texto, o gabarito: isso não é uma defesa da Dilma, isso é uma crítica ao machismo.)

  • Publicado em 08/03/2016

Fonte: Blog do Sakamoto

 

Somos os filhos da revolução, somos burgueses sem religião…

Somos os filhos da revolução, somos burgueses sem religião…

Geração coca-cola…Legião Urbana

Quando nascemos fomos programados
A receber o que vocês
Nos empurraram com os enlatados
Dos U.S.A., de 9 às 6

Desde pequenos nós comemos lixo
Comercial e industrial
Mas agora chegou nossa vez
Vamos cuspir de volta o lixo em cima de vocês

Somos os filhos da revolução
Somos burgueses sem religião
Somos o futuro da nação
Geração Coca-Cola…

Nosso dia vai chegar…

Fábrica – Legião Urbana

Nosso dia vai chegar
Teremos nossa vez
Não é pedir demais
Quero justiça
Quero trabalhar em paz
Não é muito o que lhe peço
Eu quero um trabalho honesto
Em vez de escravidão

Deve haver algum lugar
Onde o mais forte
Não consegue escravizar
Quem não tem chance

De onde vem a indiferença
Temperada a ferro e fogo?
Quem guarda os portões da fábrica?

O céu já foi azul, mas agora é cinza
O que era verde aqui já não existe mais
Quem me dera acreditar
Que não acontece nada de tanto brincar com fogo
Que venha o fogo então…