Arquivo mensais:junho 2016

Meire Poza é pivô de provas ilegais na Lava Jato, indicam documentos

Meire Poza é pivô de provas ilegais na Lava Jato, indicam documentos

A maior investigação da história pode ter passado por cima da lei em nome da justiça, mostram bastidores da operação
 

CartaCapital teve acesso a um conjunto de trocas de mensagens, vídeos, fotos e documentos que revelam que integrantes da Operação Lava Jato podem ter feito uso de provas ilegais, vazado informações confidenciais, forjado buscas e apreensões e usado uma informante infiltrada irregularmente. São diálogos entre agentes e delegados da Polícia Federal e Meire Poza, contadora e ex-braço direito de Alberto Youssef, principal delator do escândalo de corrupção na Petrobras.

O que será narrado a seguir mostra que, à margem da lei, a força-tarefa pode ter colocado todo o trabalho de três anos de investigação em risco por conta do “justiça a qualquer preço”. Eventualmente, a chamada doutrina jurídica dos frutos da árvore envenenada pode fazer com que todas as provas e missões concluídas sejam questionadas e até invalidadas pela Justiça. Outras operações, entre elas a Castelo de Areia, foram anuladas por supostamente conterem erros de procedimento.

A revista questionou a contadora a respeito dos documentos. Meire ameaçou processar o veículo, caso as conversas e dados fossem divulgados. A contadora publicou um livro faz dois meses expondo sua intimidade com os bastidores da operação, mas não revelou na ocasião todas as conversas e nem explicou à reportagem a omissão de tais fatos.

A revista decidiu tornar pública toda a documentação e revelar os fatos que serão expostos a seguir.

A história que se segue começa a ser contada em meados de 2012, quando a contadora esteve na sede da Superintendência da Polícia Federal em São Paulo. Poza, ainda não se sabe o motivo, decide denunciar a existência de um esquema de fraudes em fundos de pensão privados operados em conluio pelo doleiro Alberto Youssef e agentes de vários estados. Um delegado da PF em São Paulo que a recebeu deu de ombros. Nenhum depoimento foi colhido e nada foi feito para apurar as denúncias.

Dois anos mais tarde, quando a investigação da Lava Jato ganhou as ruas, em março de 2014, Meire procurou a PF mais uma vez e desta vez foi ouvida. Ela foi recebida em São Paulo pelo delegado Márcio Anselmo, líder do grupo que investigava lavagem de dinheiro por meio de doleiros a partir de Curitiba. Até aquele momento, a força-tarefa não fazia a mínima ideia onde a Lava Jato iria chegar e sabia-se apenas que era mais uma investigação contra lavagem de dinheiro.

CartaCapital apurou que foi feito um acordo com a contadora: ela forneceria informações dos investigados e vazaria documentações em troco de não ser processada. E há indícios de que isso de fato ocorreu. Embora seu escritório tenha lavado 5,6 milhões de reais de Youssef, Poza nunca foi sequer indiciada. CartaCapital teve acesso a trocas de mensagens, fotos, vídeos e documentos entre Meire e integrantes da força-tarefa que datam de 5 de maio de 2014 a março de 2015.

Um dos diálogos que mais chamam atenção trata da farta documentação escriturária e contábil das empresas de fachada de Youssef. Meire tinha em seu poder caixas de documentos com contratos fictícios da RCI, MO Consultoria, GDF e Empreiteira Rigidez. Companhias que só existiam no papel, mas serviam para Youssef receber propina das maiores construtoras do País.

A força-tarefa não fazia a mínima ideia da existência desses documentos. Era um acervo que identificou que Youssef recebia dinheiro das maiores construtoras do País por serviços que nunca prestou. As caixas foram entregues pela contadora, em março de 2014. No entanto, como a documentação foi entregue de maneira aparentemente ilegal, a força-tarefa precisava “esquentar a documentação” na gíria policial.

Em 5 de maio, o delegado Márcio Anselmo fala com Poza pelo aplicativo de conversas WhatsApp. “Devemos acertar para a prox semana uma viagem a sp para formalizar a apreensão daqueles documentos”. Poza responde: “Te aguardo!!!”. O delegado continua: “Se puder já separe todo o material dos contratos da gfd”.

A busca acabou se dando em 1º de julho de 2014, durante a 5ª fase da Operação Lava Jato. Um indicativo de que a Polícia Federal marcou dia e hora para uma busca e apreensão desnecessária. Uma diligência que deu ensejo ao uso de documentos que municiaram grande parte de tudo o que veio a ser descoberto.

Em um dos diálogos, o delegado indica que buscaria o Ministério Público Federal e que levaria ao conhecimento dos procuradores a relação com a contadora: “Vou conversar c o mpf sobre a sua situação”.

Fonte: Carta Capital

Fiquei chocada e não quis continuar no ‘The Voice’, diz Maria Gadú, ex-técnica do programa

Fiquei chocada e não quis continuar no ‘The Voice’, diz Maria Gadú, ex-técnica do programa

Gadu1Gadu2Gadu3Gadu4Fonte: Folha de São Paulo

Onze coisas que as mulheres não aguentam mais ouvir no Brasil (e por quê)

Onze coisas que as mulheres não aguentam mais ouvir no Brasil (e por quê)

Thiago Guimarães  (BBC Brasil)

Enquanto o país tenta entender por que registra 50 mil estupros por ano, discute-se o impacto negativo do machismo e de pequenos gestos cotidianos que alimentam essa cultura. A jornalista Brenda Fucuta é uma observadora atenta das questões femininas contemporâneas. Dirigiu algumas das principais revistas femininas do país e edita o site Mulheres Incríveis, que traz conversas com executivas de grandes empresas e jovens ativistas do feminismo brasileiro.

De olho na nova agenda do empoderamento feminino, Brenda mostra como certos conceitos e expressões legitimam uma suposta superioridade natural dos homens. Nesse sentido, defende a necessidade de todos (e todas) reaprenderem a olhar e se relacionar com as mulheres. Baseada em suas conversas com mulheres inspiradoras e na própria experiência no mundo corporativo, a jornalista selecionou e classificou frases, do assédio de rua ao machismo inconsciente, que mulheres não aceitam e não deveriam mais ouvir.

Cantadas de rua

Assobios, buzinadas, olhares, comentários: diariamente, mulheres se veem obrigadas a enfrentar o assédio sexual em espaços públicos. Interações de teor obsceno, sem consentimento, que se impõem como naturais, mas estão longe disso. Exemplos:

  • “Por que uma menina bonita como você está sem namorado?”

  • “Eu levaria você para casa.”

Para Brenda, a abordagem pode às vezes nem ser agressiva, mas nem por isso é menos desrespeitosa. “Há homens que não entendem que as meninas querem andar sem ser perturbadas, como os homens também querem. É um desrespeito a uma situação: estou andando, pensando, falando ao celular, não quero ser incomodada.”

No caso das cantadas agressivas, avalia Brenda, são “abusos sexuais falados” que buscam demonstrar poder e intimidar a mulher. “Fazem parte de uma cultura, essa tal cultura do estupro, porque é como se fosse autorizado aos homens falar, tocar e se apropriar do corpo das mulheres de uma forma que as mulheres não fazem com os homens.” A jornalista destaca como a campanha “Chega de Fiu-Fiu”, lançada em 2013 pela ONG feminista Think Olga, ajudou a “despertar a sociedade para um assunto que estava velado”. “Foi uma grande conquista para a percepção do lugar da mulher na sociedade, porque dávamos pouca atenção a isso.”

Frases de orgulho machista

Ditas por homens e também por mulheres, são frases que pressupõem um lugar inferior para a mulher na sociedade. Incluem desde brincadeiras aparentemente inofensivas sobre o desempenho feminino no trânsito até comentários a respeito da menina que se veste de modo “a não se dar o devido respeito”:

  • “Por que mulheres são contra as cantadas? Não gostam de um elogio?”

  • “Muito bem, já pode casar.”

  • “Se sai assim (na rua ou na balada) é porque quer. Mulher que se respeita não é estuprada.”

Machistas em negação

Outra categoria de frase que não cabe mais na nova etiqueta de gênero, afirma Brenda, é aquela que definiu como “machista em negação”: sugere compreensão mas logo revela preconceito. “São aqueles ou aquelas que sempre começam, ao debater o tema das conquistas femininas, com a seguinte frase: ‘não sou machista, mas…’ ou ‘não tenho nada contra o feminismo, mas…’, e depois já emendam uma ideia preconceituosa disfarçada”, afirma. São expressões como:

  • “Mas vocês não acham que estão exagerando agora? O que mais vocês têm para conquistar?” (a resposta, diz Brenda, é múltipla: direito a não apanhar do marido, a ganhar os mesmos salários dos homens, a dividir o trabalho de casa com homens, a não ser interrompida ao falar, a andar como quiser nas ruas).

  • “Mas vocês falam em violência contra a mulher, mas e a violência contra os homens?” Sobre isso, Brenda lembra que homens são, de fato, as maiores vítimas de homicídio no Brasil, mas o agressor é quase sempre homem nos casos contra homens e mulheres.

  • “Mas por que as feministas odeiam os homens?”

Machismo inconsciente (ou ‘O machista que se acha feminista’)

Uma pesquisa do Instituto Ethos mostrou que em 2010 mulheres ocupavam apenas 13% dos cargos de nível executivo e sênior nas 500 maiores empresas do Brasil. Em 2014, revelou o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), as mulheres receberam, em média, 74% da renda dos homens. Neste sentido, Brenda questiona o uso de frases que aponta como comuns no mundo corporativo e que denotam uma espécie de machismo inconsciente. Colocações como:

  • “Acredito na meritocracia. Se a mulher é competente, ela chega lá.”

  • “Não há machismo nessa empresa. Você, por exemplo, tem um salário maior do que muitos colegas homens.”

  • “Sou muito a favor das mulheres e do feminismo. Em casa, por exemplo, são minhas filhas e esposa que mandam em mim.”

Para a jornalista, são afirmações que não fazem sentido quando são confrontadas com dados de disparidade de gênero em cargos de chefia e salários: “As mesmas pesquisas que apontam a falta de mulheres em cargos de direção apontam que no nível inicial do trabalho a proporção de mulheres é até ligeiramente maior. Por esse raciocínio, então, as mulheres não ocupam o alto da hierarquia porque são incompetentes ou não merecem, o que não faz sentido, porque hoje no Brasil as mulheres têm até mais escolaridade do que os homens”.

Brenda diz ver esse tipo de expressão como “campeã do machismo”, por revelar desconhecimento do que seja feminismo e do papel da mulher na sociedade no século 21. “Essas frases de machismo inconsciente podem ser até mais perigosas, porque as pessoas acreditam nelas”. “Uma vez ouvi o presidente de uma grande empresa, em um evento de empoderamento de mulheres, dizendo que era super comprometido com a causa até porque quem mandava nele em casa eram mulheres. Quando diz isso, volta a colocar a mulher em um lugar ltrapassado, de submissão, em casa novamente”, conclui.

Feminismo e desinformação

A editora do site Mulheres Incríveis acredita que ainda exista muita incompreensão, inclusive entre mulheres, sobre o que seja o feminismo. Como no caso de mulheres que dizem não ser feministas porque “defendem a diferença entre homens e mulheres” ou porque “acreditam na convivência pacífica entre homens e mulheres”. Segundo ela, nenhuma corrente do chamado novo feminismo defende a anulação das diferenças entre homem e mulher. “O que esses movimentos pretendem é a busca de direitos sociais iguais”, pontua.

Brenda identifica a persistência de “mal-entendidos” em torno do conceito de feminismo – “palavra forte e ainda carregada de preconceito”. Cita o exemplo de executivas de sucesso que, embora tenham postura feminista, rejeitam o “selo” de feminista: “Vivemos um momento de transição em relação a direitos humanos, diversidade, inclusão de minorias. Ainda bem, senão ninguém falava sobre isso. Aí, quando a gente fala, parte da população se sente ameaçada e nem mesmo sabe por quê. Sente-se acuada, com medo de perder coisas. E aí começa a criar uma reação em cima de mal-entendidos e, em geral, por falta de conhecimento”.

Brenda afirma conceber e praticar o feminismo como um “exercício de transformação da sociedade para um jeito mais libertador de convivência, não julgador”. Nesse sentido, afirma que o debate motivado pelos casos recentes de estupro coletivo no Brasil é positivo por “jogar luz numa ferida social que não gostamos de comentar”. Para ela, sem minimizar os episódios de estupro coletivo, é preciso avançar a discussão para o abuso sexual que ocorre dentro das casas e no entorno das vítimas, que compõe a maioria dos registros. “Isso é muito sério e deve ser combatido, mesmo que seja ativismo de sofá, pegar a moldura do Facebook (contra a cultura do estupro) e reproduzir. Essa é a grande próxima etapa, encarar essa questão delicada sobre a qual ninguém quer falar, mas precisa ser iluminada”, finaliza.

Inversão de Valores

Inversão de Valores – Nem todas as crianças mortas têm direito ao luto

Guilherme Boulos

Matar uma criança é o crime universalmente mais abominado. Correto? Depende. De quem morre e de quem mata. No último mês as forças policiais mataram duas. Ítalo, de apenas dez anos, foi morto com um tiro na cabeça por policiais militares, no último dia 2, na zona sul da capital. E Waldik, de onze, foi assassinado por um guarda civil na semana passada na Cidade Tiradentes.

Ah, se fosse nos Jardins! Os assassinos estariam presos e milhares de pessoas teriam marchado na avenida Paulista com balões brancos. A sociedade se comoveria ante dois futuros ceifados e saberíamos hoje todos os detalhes de suas vidas, seus gostos e preferências. Seriam tratados, enfim, com o luto que se reserva às crianças mortas.

Mas nem todas as crianças têm direito a esse luto. Dois garotos pobres e mortos em “perseguições policiais” não parecem ser dignos de nossa empatia.

O que sabe da história de Ítalo é uma sucessão de sofrimentos. Abandonado pelos pais, foi encontrado empinando pipa e pedindo comida na rua. Levado a abrigos, uma psicóloga que o acompanhou relata que, apesar das marcas de queimadura de cigarro pelo corpo, era alegre e ensinava as crianças a fazer pipa. Entre a revolta do abandono e a alegria infantil, alimentava o sonho de ser cantor.

Já Waldik vivia com a família e, como as crianças de sua idade, gostava de jogar bola e andar de bicicleta. Em uma de suas últimas fotos aparece sorridente na praça de alimentação do shopping, após ter ido ao cinema. ” Vou sentir que ele morreu depois, que ele não vai estar mais na caminha dele”, disse dona Orlanda, a mãe.

Duas crianças, nenhuma comoção. Mas o sinal de horror não está apenas na falta de empatia, numa certa indiferença social ao assassinato dos dois. Vai além disso, numa perversa inversão de valores.

inversao

O ouvidor, Júlio César Fernandes Neves, afirmou ver indícios evidentes de irregularidades na ação policial e cobrou investigações. Disse o que qualquer pessoa sensata diria. E o que, aliás, ficou comprovado em perícia posterior, mostrando adulteração da cena do crime pelos policiais.

Mas, como se sabe, nenhuma situação é tão absurda que não possa piorar. O projeto do Coronel Camilo pretende acabar com a indicação da lista tríplice para a Ouvidoria por órgãos da sociedade civil e permitir a exoneração do ouvidor pelo governo antes do fim do mandato. Trata-se, de fato, de destruir qualquer autonomia do órgão.

A Ouvidoria divulgou recentemente o dado de que as forças policiais paulistas mataram 191 crianças e adolescentes nos últimos seis anos, revelando que os casos de Ítalo e Waldik não foram isolados. Mostrou ainda que 60% desses jovens são negros.

É compreensível que denúncias como essa incomodem uma instituição pouco acostumada à transparência e que parece ter salvo-conduto para matar.

O ouvidor está correto e precisa ser respaldado. A Ouvidoria deve ser fortalecida como instituição independente, ganhando inclusive mais prerrogativas na investigação dos crimes praticados por policiais.

Há algo errado quando os policiais que mataram uma criança estão soltos e quem os denuncia é posto sob suspeita.

Guilherme Boulos é formado em Filosofia pela USP, é membro da coordenação do MTST e da Frente de Resistência Urbana

Fonte: Folha de São Paulo

Escola Sem Partido: Doutrinação comunista, Coelho da Páscoa e Papai Noel (Eu Acredito_

Escola Sem Partido: Doutrinação comunista, Coelho da Páscoa e Papai Noel

Leonardo Sakamoto

O bicho está pegando na educação. É tanto problema que você pode montar o seu combo: roubo de merenda, escolas ocupadas, universidades em greve (e quebradas), proposta de teto orçamentário ameaçando investimentos na área, Plano Nacional de Educação completando dois anos sem NENHUMA meta cumprida e por aí vai.

Mas a julgar pelo que se passa na Congresso Nacional e na mídia, o grande mal da educação brasileira tem outro nome: “Doutrinação Político-Partidária”.

A questão é a bandeira principal do movimento Escola Sem Partido, aquele mesmo defendido por um dos maiores especialistas em Pedagogia (FROTA, Alexandre), em encontro com o ministro Mendonça Filho no fim do mês passado.

O ESP não consta da pauta de reivindicações ao titular interino do MEC, como mostrou a agência Lupa. Mesmo assim, o papo descontraído agradou o presidente do movimento, o advogado e procurador do Estado de São Paulo Miguel Nagib.Veja o recadinho em seu Facebook: “Quero agradecer publicamente ao Alexandre Frota por haver defendido o Projeto Escola sem Partido em sua audiência com o Ministério da Educação. Não exigimos atestado de bons antecedentes.”

Fico pensando em que mundo essa turma vive para achar que as escolas brasileiras – “em todos os níveis, do ensino básico ao superior” – sofrem de “contaminação político-ideológica” comandada por “um exército organizado de militantes travestidos de professores” (é sério, gente, tá tudo no site do movimentohttp://www.escolasempartido.org/).

A doutrinação na educação é um bichinho pequeno, mas o Escola Sem Partido joga um forte holofote sobre ele e pede que olhemos a sombra – monstruosa, assustadora – projetada na parede.

Uma boa reportagem publicada, nesta sexta (24), no site da Nova Escola confirma essa impressão. São perguntas e respostas que apontam o óbvio: não há evidência consistente do problema.

O Escola Sem Partido afirma ter um batalhão de denúncias de doutrinação, mas publica apenas 33 em seu site (detalhe: o Brasil tem 45 milhões de estudantes). São elas, e uma pesquisa encomendada pela revista Veja em 2008, que sustentam as ações do movimento.

Isso está muito longe de configurar uma tendência, que precisa de dados mais robustos e outros estudos comprovado que confirmem a hipótese. E tem uma outra coisinha: se existe doutrinação esquerdista, ela está dando muito, mas muito errado. Em uma pesquisa Datafolha de dois anos atrás, o próprio mapa eleitoral das últimas eleições registra um avanço da direita e um recuo da esquerda.

A reportagem também mostra que de “Sem Partido” o ESP não tem nada. O levantamento dos projetos de lei inspirados nas ideias do movimento mostra um claro predomínio dos partidos de direita e de centro. O campeão é o PSC, com cinco proponentes. Outro dado que ilustra o caráter “independente” é a vinculação religiosa: 11 dos 19 proponentes de projetos inspirados pelo ESP são ligados a alguma igreja.

As propostas do movimento são perigosas para o pensamento livre. Além dos projetos de lei contra a militância partidária, o ESP disponibiliza uma notificação extrajudicial que ameaça processar professores que abordarem sexualidade e diversidade de gênero. Além de configurar constrangimento ao exercício profissional, é uma baita contradição para quem diz defender a “pluralidade” e o caminho oposto dos países de alto desempenho em educação: Estados Unidos (em que alguns estados oferecem educação sexual desde o século 19), Nova Zelândia, Suécia e Finlândia, França. Ontário, no Canadá, tem currículo que discute relacionamento homoafetivo e identidade de gênero. Aqui, querem interditar o debate.

Mesma coisa com os estudos indígenas e africanos, classificados como porta de entrada para favorecer “movimentos sociais”. Já na Noruega, o currículo é generoso com o povo sami, habitantes originais do norte da Escandinávia. “Doutrinação”, por lá, chama-se respeito à diversidade e às raízes da história do país.

Suspeito que por trás da gritaria esteja uma enorme confusão conceitual. O Escola Sem Partido elege o marxismo como chaga principal, sem sequer se preocupar em definir que raios quer dizer com isso.

Fica nas entrelinhas o entendimento de que joga no mesmo balaio as ideias de Marx, o fracasso do socialismo real e as atrocidades imperdoáveis dos regimes comunistas.

Dessa forma, fica mais fácil ilustrar a tal sombra monstruosa e aterrorizante que “domina as universidades brasileiras” – outra afirmação sem nenhuma evidência.

Aliás, queria muito conhecer essa universidade. Fiz minha graduação em Jornalismo e mestrado e doutorado em Ciência Política na Universidade de São Paulo. E, definitivamente, lá não é. Pelo contrário, a New School, universidade que me recebeu como pesquisador visitante, é bem mais progressista que minha querida USP. E, ironicamente, fica numa cidade comunista (Nova Iorque) de um país comunista, os Estados Unidos.

Para piorar, o principal evangelista dessa Bíblia do Mal, na opinião do movimento seria ninguém mais, ninguém menos do que Paulo Freire. Justo ele, pacifista convicto e obsessivo pela ideia de que as pessoas deveriam pensar livremente.

Coisa de quem nunca leu uma linha sequer do educador brasileiro mais respeitado no mundo. Ou, se leu, não entendeu nada.

O baixo nível do debate, aliás, é o mais triste. Com tanta coisa importante para discutir, com tanta ação urgente para tomar, nos pegamos imobilizados numa falsa questão, sustentada por argumentos frágeis e para lá de questionáveis.

Presos na cortina de fumaça da suposta doutrinação, empobrecemos um pouco mais o debate sobre educação. Ganha quem aposta na confusão e na contenção dos pequenos avanços civilizatórios da área nos últimos anos.

E o futuro, aquele que nunca chega, vai ficando a cada dia mais distante.