Arquivo mensais:junho 2016

Mulheres Negras – Sub

Mulheres Negras – Sub

“Sub”, uma das pérolas d´Os Mulheres Negras, formado por André Abujamra e Maurício Pereira. Música de qualidade com humor inteligente, coisa rara no cenário nacional. Trecho de um show realizado nos anos 80.

Os Mulheres Negras – Milho

Os Mulheres Negras ao vivo, tocando “Milho” com a participação de Almir Sater.

Os Mulheres Negras – Purquá mecê

“Purquá Mecê”, mais uma das pérolas d´Os Mulheres Negras, formado por André Abujamra e Maurício Pereira. Música de qualidade com humor inteligente, coisa rara no cenário nacional. Trecho de um show realizado nos anos 80.

Fonte: Youtube

Nesta crise, não dê dinheiro aos ricos. Isso os torna vagabundos

Nesta crise, não dê dinheiro aos ricos. Isso os torna vagabundos

Leonardo Sakamoto

Os 10% mais rico da força de trabalho brasileira aumentou sua renda de 2015 para cá enquanto a metade mais pobre diminuiu. É o que aponta um levantamento realizado pela Universidade de São Paulo. Com isso, a desigualdade cresceu, ao contrário do que aconteceu entre 2001 e 2014, quando ela recuou pelo fato da massa da renda dos trabalhadores mais pobres ter crescido mais do que a dos mais ricos.

Traduzindo em português, nessa crise, como em todas as crises, a ralé rodou.

Nesse contexto, o governo interino de Michel demonstra um carinho grande com o andar de cima ao propor o limite de gastos com educação e saúde (que afeta o povaréu) e evitar medidas que tirem uma pequena lasca dos mais ricos.

Por exemplo, a taxação de lucros e dividendos recebidos de empresas e uma alteração decente na tabela do Imposto de Renda – criando alíquotas de 35% a 40% para cobrar mais de quem ganha muito e isentando a maior parte da classe média. Ou a regulamentação de um imposto sobre grandes fortunas e um aumento na taxação de grandes heranças – seguindo o modelo norte-americano ou europeu. Todas essas medidas têm função arrecadatória, mas também de redução da desigualdade social.

Não resolvem os problemas econômicos. Mas seriam ótimas ações para que o governo interino demonstrasse que suas prioridades de curto prazo não são apenas com as classes sociais e associações empresariais que os colocaram lá, mas também com o povão que não foi às ruas, nem a favor, nem contra o impeachment, e assistiu a tudo bestializado. Afinal, democratizar a chicotada também é por uma questão de justiça social.

É engraçado que muitos entre nós, os mais abastados, não reclamam do dinheiro público quando ele nos beneficia. Seja através do peso relativo menor na carga tributária, do benefício de estudar em boas universidades públicas, dos juros pagos em fundos baseados na dívida federal, da polícia que sarrafa os pobres e também morre para nos proteger.

Mas gritam, berram e vociferam ao defendermos a manutenção de programas de transferência de renda ou criticarmos a implantação de tetos para gastos públicos em educação e saúde. E fuzilam com os olhos ou partem para as vias de fato quando tenta-se discutir taxas e impostos sobre os mais ricos para que os que têm mais ajudem com mais para sairmos da crise.

Isso não é criminalizar quem é abastado, como muito tem se falado toda vez que se toca nesse assunto. Mas rediscutir um sistema que, em todos os momentos, de crise ou de bonança, faz com que os muito ricos sejam poupados, enquanto os mais pobres vão virando geleia.

Para muita gente, fraternidade e solidariedade são palavras que significam “doação de calças velhas para vítimas de enchente”, “brinquedos usados repassados a orfanatos no Natal” ou “um doc limpa-consciência feito a algum orfanato”.

Nada sobre um esforço coletivo de buscar a dignidade para todos, com distribuição imediata (e não depois que o bolo crescer) da riqueza gerada no país. Crescimento produzido pelos mesmos trabalhadores que não desfrutam da maior parte de seus resultados. Porque, apenas teoricamente, todos nascem iguais.

Considerando que o governo coloca em seu horizonte a discussão sobre as mudanças na política da valorização do salário mínimo para os da ativa e pensionistas, as alterações no financiamento do Bolsa Família e, é claro, a própria reforma da Previdência Social, percebe-se que a redução da desigualdade social não voltará tão cedo.

E se eu dissesse que “dar dinheiro aos ricos os torna vagabundos?” Por que usar a frase para os pobres é ser um “analista sensato da realidade” e usar a frase aos ricos é ser um “canalha de um comunista safado”?

Fonte; Blog do Sakamoto

Pânico nas redes sociais: Se “Bolsomito” não é invulnerável, nós também não

Pânico nas redes sociais: Se “Bolsomito” não é invulnerável, nós também não

Leonardo Sakamoto

Muita gente não se deu conta do impacto da decisão do Supremo Tribunal Federal que aceitou, nesta terça (21), denúncia de incitação ao crime de estupro e transformou o deputado federal Jair Bolsonaro (PSC-RJ) em réu em uma ação penal. Bolsonaro havia declarado, no Congresso Nacional, que não estupraria a deputada Maria do Rosário porque ela “não merece”, repetindo o conteúdo em uma entrevista.

Segundo os ministros que avaliaram a denúncia, apresentada pela Procuradoria Geral da República, Bolsonaro não estava respaldado por imunidade parlamentar porque o ocorrido não teve relação com o exercício de seu mandato. Segundo o relator Luiz Fux, a mensagem que ele proferiu significa que há mulheres em posição de merecimento de estupro. “A violência sexual é um processo consciente de intimidação pelo qual as mulheres são mantidas em estado de medo.”

Independentemente do desfecho do caso, essa decisão é emblemática. Os ministros do STF deixaram claro que ninguém pode usar sua liberdade de expressão para atacar os direitos fundamentais de outros grupos e pessoas. Isso é óbvio, mas vinha sendo ignorado de forma sistemática neste clima de polarização política que vivemos.

Bolsonaro é considerado um exemplo por muita gente – incluindo parte significativa da elite brasileira que o prefere como presidente da República em comparação a outros candidatos de acordo com pesquisas eleitorais. E o seu comportamento – de rolo compressor verbal sobre a dignidade de minorias em direitos – tem certamente inspirado muitas pessoas a fazerem o mesmo com a certeza de que nada aconteceria com eles. Até porque nada acontecia com seu líder.

Agora, aterrorizados, muitos de seus seguidores passaram o dia protestando contra a decisão do STF nas redes sociais. Afinal de contas, se “bolsomito” não é imortal, imbatível e invulnerável, podendo ser punido pela Justiça caso incite violência sem se preocupar com as consequências, o exército digital que o segue (e consegue ser mais violento que seu líder) também pode.

Muita gente na internet confunde opinião com discurso de ódio. É um erro bem comum quando não se está acostumado às regras do debate público de ideias. O anonimato traz aquela sensação quentinha de segurança e, por conta disso, não raro, as pessoas extrapolam. Sentem-se livres de punição pelos seus atos. Afinal de contas, na rede é menos simples (mas não impossível) identificar quem falou ou fez a abobrinha.

Vamos por partes: o direito ao livre exercício de pensamento e o direito à liberdade de expressão são garantidos pela Constituição e pelos tratados internacionais que o país assinou. Vale explicar, contudo, para quem não é familiarizado com leis e normas, que a liberdade de expressão não é um direito fundamental absoluto. Porque não há direitos fundamentais absolutos. Nem o direito à vida é. Prova disso é o direito à legítima defesa.

Pois a partir do momento em que alguém abusa de sua liberdade de expressão, indo além de expor a sua opinião, espalhando o ódio e incitando à violência, isso pode trazer consequências mais graves à vida de outras pessoas.

Pessoas como Bolsonaro dizem que não incitam a violência. Sabemos que não é a mão delas que segura a faca ou o revólver, mas é a sobreposição de seus discursos ao longo do tempo que distorce o mundo e torna banais o ato de esfaquear, atirar e atacar. Ou, melhor dizendo, “necessários”, quase um pedido do céu. São pessoas como ele que cozinham lentamente a intolerância, que depois será consumida pelos malucos que fazem o serviço sujo.

A liberdade de expressão, contudo, não admite censura prévia. Ou seja, apesar de alguns juízes não entenderem isso e darem sentenças aqui e ali para calar de antemão biografias, reportagens, propagandas, movimentos sociais, a lei garante que as pessoas não sejam proibidas de dizer o que pensam. E foi isso o que aconteceu. Bolsonaro quis falar, Bolsonaro falou.

Entretanto, as pessoas são sim responsáveis pelo impacto que a divulgação de suas opiniões causa. Como foi o caso de dirigir a um grupo específico (mulheres) um sentimento de ódio. E toda pessoa que emitir um discurso de ódio está sujeita a sofrer as consequências: pagar uma indenização, ir para a cadeia, perder o emprego, tornar-se inelegível na próxima eleição. Afinal, o exercício das liberdades pressupõe responsabilidade. Quem não consegue conviver com isso, não deveria nem fazer parte do debate público, recolhendo-se junto com sua raiva e ódio ao seu cantinho.

Por fim, a responsabilidade por uma declaração é diretamente proporcional ao poder de difusão dessa mensagem. Quanto mais pública a figura, mais responsável ela deve ser.

O problema, portanto, não é ter opinião. Muito menos declará-la. E sim como você faz isso. De forma respeitosa ou agressiva? Privilegiando o diálogo de diferentes e buscando uma convivência pacífica, ou conclamando as pessoas para desrespeitar ainda mais aqueles vistos como diferentes por medo ou desconhecimento? Como disse Paulo Freire, todos somos guiados por ideologias. A diferença é se sua ideologia é inclusiva ou excludente.

Vocês acham que as pessoas que ficam indignadas com as declarações de Bolsonaro são uma minúscula minoria da população? Desconfio que não. Uma grande parte acha graça no que ele fala ou mesmo concordou com ele, tal como a plateia riu quando Alexandre Frota contou uma narrativa de violência sexual em um programa de TV.

A decisão do Supremo, portanto, é civilizatória. Não apenas para Bolsonaro, mas para aquilo que encaramos no espelho diariamente.

 

Fonte: Blog do Sakamoto

Escola Sem Partido: Doutrinação comunista, Coelho da Páscoa e Papai Noel

Escola Sem Partido: Doutrinação comunista, Coelho da Páscoa e Papai Noel

Leonardo Sakamoto

O bicho está pegando na educação. É tanto problema que você pode montar o seu combo: roubo de merenda, escolas ocupadas, universidades em greve (e quebradas), proposta de teto orçamentário ameaçando investimentos na área, Plano Nacional de Educação completando dois anos sem NENHUMA meta cumprida e por aí vai.

Mas a julgar pelo que se passa na Congresso Nacional e na mídia, o grande mal da educação brasileira tem outro nome: “Doutrinação Político-Partidária”.

A questão é a bandeira principal do movimento Escola Sem Partido, aquele mesmo defendido por um dos maiores especialistas em Pedagogia (FROTA, Alexandre), em encontro com o ministro Mendonça Filho no fim do mês passado.

O ESP não consta da pauta de reivindicações ao titular interino do MEC, como mostrou a agência Lupa. Mesmo assim, o papo descontraído agradou o presidente do movimento, o advogado e procurador do Estado de São Paulo Miguel Nagib.Veja o recadinho em seu Facebook: “Quero agradecer publicamente ao Alexandre Frota por haver defendido o Projeto Escola sem Partido em sua audiência com o Ministério da Educação. Não exigimos atestado de bons antecedentes.”

Fico pensando em que mundo essa turma vive para achar que as escolas brasileiras – “em todos os níveis, do ensino básico ao superior” – sofrem de “contaminação político-ideológica” comandada por “um exército organizado de militantes travestidos de professores” (é sério, gente, tá tudo no site do movimentohttp://www.escolasempartido.org/).

A doutrinação na educação é um bichinho pequeno, mas o Escola Sem Partido joga um forte holofote sobre ele e pede que olhemos a sombra – monstruosa, assustadora – projetada na parede.

Uma boa reportagem publicada, nesta sexta (24), no site da Nova Escola confirma essa impressão. São perguntas e respostas que apontam o óbvio: não há evidência consistente do problema.

O Escola Sem Partido afirma ter um batalhão de denúncias de doutrinação, mas publica apenas 33 em seu site (detalhe: o Brasil tem 45 milhões de estudantes). São elas, e uma pesquisa encomendada pela revista Veja em 2008, que sustentam as ações do movimento.

Isso está muito longe de configurar uma tendência, que precisa de dados mais robustos e outros estudos comprovado que confirmem a hipótese. E tem uma outra coisinha: se existe doutrinação esquerdista, ela está dando muito, mas muito errado. Em uma pesquisa Datafolha de dois anos atrás, o próprio mapa eleitoral das últimas eleições registra um avanço da direita e um recuo da esquerda.

A reportagem também mostra que de “Sem Partido” o ESP não tem nada. O levantamento dos projetos de lei inspirados nas ideias do movimento mostra um claro predomínio dos partidos de direita e de centro. O campeão é o PSC, com cinco proponentes. Outro dado que ilustra o caráter “independente” é a vinculação religiosa: 11 dos 19 proponentes de projetos inspirados pelo ESP são ligados a alguma igreja.

As propostas do movimento são perigosas para o pensamento livre. Além dos projetos de lei contra a militância partidária, o ESP disponibiliza uma notificação extrajudicial que ameaça processar professores que abordarem sexualidade e diversidade de gênero. Além de configurar constrangimento ao exercício profissional, é uma baita contradição para quem diz defender a “pluralidade” e o caminho oposto dos países de alto desempenho em educação: Estados Unidos (em que alguns estados oferecem educação sexual desde o século 19), Nova Zelândia, Suécia e Finlândia, França. Ontário, no Canadá, tem currículo que discute relacionamento homoafetivo e identidade de gênero. Aqui, querem interditar o debate.

Mesma coisa com os estudos indígenas e africanos, classificados como porta de entrada para favorecer “movimentos sociais”. Já na Noruega, o currículo é generoso com o povo sami, habitantes originais do norte da Escandinávia. “Doutrinação”, por lá, chama-se respeito à diversidade e às raízes da história do país.

Suspeito que por trás da gritaria esteja uma enorme confusão conceitual. O Escola Sem Partido elege o marxismo como chaga principal, sem sequer se preocupar em definir que raios quer dizer com isso.

Fica nas entrelinhas o entendimento de que joga no mesmo balaio as ideias de Marx, o fracasso do socialismo real e as atrocidades imperdoáveis dos regimes comunistas.

Dessa forma, fica mais fácil ilustrar a tal sombra monstruosa e aterrorizante que “domina as universidades brasileiras” – outra afirmação sem nenhuma evidência.

Aliás, queria muito conhecer essa universidade. Fiz minha graduação em Jornalismo e mestrado e doutorado em Ciência Política na Universidade de São Paulo. E, definitivamente, lá não é. Pelo contrário, a New School, universidade que me recebeu como pesquisador visitante, é bem mais progressista que minha querida USP. E, ironicamente, fica numa cidade comunista (Nova Iorque) de um país comunista, os Estados Unidos.

Para piorar, o principal evangelista dessa Bíblia do Mal, na opinião do movimento seria ninguém mais, ninguém menos do que Paulo Freire. Justo ele, pacifista convicto e obsessivo pela ideia de que as pessoas deveriam pensar livremente.

Coisa de quem nunca leu uma linha sequer do educador brasileiro mais respeitado no mundo. Ou, se leu, não entendeu nada.

O baixo nível do debate, aliás, é o mais triste. Com tanta coisa importante para discutir, com tanta ação urgente para tomar, nos pegamos imobilizados numa falsa questão, sustentada por argumentos frágeis e para lá de questionáveis.

Presos na cortina de fumaça da suposta doutrinação, empobrecemos um pouco mais o debate sobre educação. Ganha quem aposta na confusão e na contenção dos pequenos avanços civilizatórios da área nos últimos anos.

E o futuro, aquele que nunca chega, vai ficando a cada dia mais distante.

Fonte: Blog do Sakamoto

Música do dia “Nightrain”

No auge da carreira no final dos anos 80, a formação clássica do Guns N’ Roses, que não veremos mais nessa vida. Axl Rose, Izzy Stradlin, Duff Mckagan, Saul Hudson e Steve Adler.

Minha música favorita, Nightrain