Arquivo mensais:abril 2018

Alice Cooper – Poison

Alice Cooper – Poison

Your cruel device
Your blood, like ice
One look, could kill
My pain, your thrill
I wanna love you but I better not touch (don’t touch)
I wanna hold you, but my senses tell me to stop
I wanna kiss you but I want it too much (too much)
I wanna taste you but your lips are venomous poison
You’re poison, running through my veins
You’re poison
I don’t want to break these chains
Your mouth, so hot
Your web, I’m caught
Your skin, so wet
Black lace, on sweat
I hear you calling and it’s needles and pins (and pins)
I wanna hurt you just to hear you screaming my name
Don’t want to touch you but you’re under my skin (deep in)
I wanna kiss you but your lips are venomous poison
You’re poison, running through my veins
You’re poison
I don’t want to break these chains
Poison
One look, could kill
My pain, your thrill
I wanna love you but I better not touch (don’t touch)
I wanna to hold you, but my senses tell me to stop
I wanna to kiss you but I want it too much (too much)
I wanna taste you but your lips are venomous poison
You’re poison, running through my veins
You’re poison
I don’t want to break these chains
Poison (poison)
I wanna love you but I better not touch (don’t touch)
I wanna hold you, but my senses tell me to stop
I wanna kiss you but I want it too much (too much)
I wanna taste you but your lips are venomous poison
Yeah, well I don’t want to break these chains
Poison (poison)
Runnin’ deep inside my veins
Burnin’ deep inside my brain (poison)
Poisoning (poison)
I don’t want to break these chains (poison)
Poison
(Poison) I don’t want to break these chains (poison)

Concerto 50 anos da Fundação das Artes na Sala São Paulo marca noite histórica para a Instituição

Concerto 50 anos – Fundação das Artes celebra aniversário em noite histórica na Sala São Paulo

Evento contou com a presença de autoridades locais, participação especial de músicos da Orquestra Sinfônica de São Paulo, do cantor João Bosco, apresentações de Teatro e Dança. Destaques para a participação das crianças e jovens das Cameratas de Cordas e 1400 convidados, entre familiares, convidados e público em geral.

João Bosco na celebração de 50 anos da FASCS

Concerto 50 anos da FASCS – Foto: Douglas Almeida

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Quatro mitos sobre o autismo

Quatro mitos sobre o autismo

A história do autismo é, em parte, uma história de mitos: de mitos consagrados como fatos por médicos, de mitos que formatam atitudes sociais em relação a um distúrbio altamente complexo, e, por fim, de mitos desmascarados por estudos mais aprofundados.

Esse ciclo vem se repetindo ao longo das décadas, normalmente com efeitos devastadores nas vidas de pessoas com autismo e de suas famílias.

Um dos primeiros mitos foi propagado por um dos homens a quem se atribui a identificação do autismo, o psiquiatra infantil Leo Kanner. Ele foi uma figura polêmica, que se enganou em relação a vários outros aspectos cruciais do distúrbio.

Em 1948, Kanner escreveu na revista Time que os pais de seus pacientes provocaram o autismo no filhos ao não oferecerem a eles amor e estímulos. A imagem da “mãe-geladeira” se provou indelével no imaginário público e, como consequência, duas gerações de crianças autistas foram internadas em instituições e submetidas a punições severas, aprisionamento e “tratamentos” experimentais brutais.

Hoje, sabemos que não há provas que sustentem as afirmações de Kanner sobre as mães. Mas vários outros mitos perniciosos sobre o autismo continuam fortes, incentivando a má distribuição de escassos financiamentos para pesquisas científicas, contribuindo para a formulação de diretrizes públicas equivocadas, consumindo os recursos das famílias e distorcendo a percepção da sociedade em relação aos autistas.

Aqui estão quatro dos mitos mais prejudiciais que precisam desesperadamente ser derrubados:

Leia também: Café aberto para filho autista muda vida de deficientes filipinos

Mito 1: Antigamente, o autismo era raro, mas, hoje, é comum

Fóruns na internet usados por pais de autistas estão lotados de memes que apresentam terríveis variações sobre o tema: em 1970, a prevalência estimada do autismo entre crianças de idade escolar nos Estados Unidos era de 1 em cada 10 mil. Hoje, é de 1 em cada 68.

Alguns pais e ativistas erradamente culpam certas vacinas, principalmente após a série de estudos de caso realizada por Andrew Wakefield em 1998 e que estabeleceria uma relação entre a vacina tríplice viral e uma hipotética doença dos intestinos batizada de enterocolite autística.

Como a tese não tinha provas suficientes, outros co-autores se retrataram sobre o estudo, e a revista científica que o publicou o retirou de seus anais.

Na realidade, o principal fator para o dramático salto na prevalência do autismo nas últimas décadas é o fato de que mais crianças, adolescentes e adultos no espectro agora conseguem receber um diagnóstico.

Até os anos 1980, não havia um “espectro do autismo”: o distúrbio era definido por características bem rígidas e era tido como raro. Por causa disso, até então, muitas famílias tinham que levar seus filhos a nove ou dez especialistas até conseguirem um diagnóstico de autismo.

E isso era muito caro para famílias de baixa renda ou afro-americanas nos Estados Unidos. As meninas com autismo foram praticamente invisíveis para a psiquiatria até o fim do século passado.

Curiosamente, foi a mãe de uma menina autista e com deficiências profundas – a falecida psiquiatra britânica Lorna Wing – quem finalmente retirou a mão de ferro de Kanner sobre o escopo do diagnóstico.

No fim dos anos 1980, Wing introduziu o conceito que depois foi conhecido como “espectro do autismo” e passou a incluir nele a síndrome de Asperger. Suas teorias se tornaram bastante populares entre médicos, porque refletiam a gama diversa de seus pacientes melhor do que os parâmetros rígidos de Kanner.

Wing e seus colegas também esclareceram que o autismo é um deficiência do desenvolvimento que dura toda a vida e não uma psicose da primeira infância, como Kanner divulgou.

Para ela, o aumento na prevalência nas últimas décadas se deve apenas a essa mudança no diagnóstico.

Leia também: Por que mentimos para nós mesmos?

Mito 2: Pessoas com autismo não sentem empatia

Em gerações passadas, pessoas com autismo eram frequentemente retratadas na mídia e na literatura médica como autômatos sem emoções, incapazes de sentir compaixão. Na realidade, esses pacientes frequentemente se preocupam com os sentimentos daqueles que os cercam, muitas vezes a um nível paralisante.

O problema é que eles têm dificuldades em decodificar os sinais sociais – as ligeiras mudanças na expressão facial, na linguagem corporal e no tom de voz que nós facilmente percebemos.

A noção de que autistas não sentem empatia tem sido usada para perpetuar inúmeras injustiças cruéis com eles, inclusive a afirmação de que vários autores de chacinas sofreriam do distúrbio.

Tanto autistas como não autistas têm dificuldades em ver o mundo sob perspectiva dos outros. Para as crianças no espectro, o uso de “histórias sociais” – representações visuais de interações pessoais – pode acelerar o aprendizado.

Quem não sofre de autismo pode entender melhor a condição passando mais tempo com estas pessoas em ambientes não clínicos e onde não haja uma sobrecarga de estímulos. A empatia, afinal, é uma via de mão dupla.

Leia também: O homem que não consegue sentir emoções

Mito 3: Crianças autistas precisam ser tratadas até serem ‘indistinguíveis de seus colegas’

Nos anos 1980, o psicólogo Ole Ivar Lovaas, da Universidade da Califórnia em Los Angeles, eletrificou a comunidade de pais de autistas ao dizer que as crianças poderiam ser tornadas “indistinguíveis” ao serem submetidas a anos de intensa modificação comportamental.

O método que ele desenvolveu, conhecido como Análise de Comportamento Aplicada, ainda é a intervenção mais usada logo após o diagnóstico do autismo.

Mas há vários problemas com essa abordagem, principalmente o fato de ela requisitar a participação de todas as pessoas importantes para o paciente a todo momento, algo impossível para muitas famílias, do ponto de vista financeiro e logístico.

Lovaas também exagerou ao relatar o sucesso de suas intervenções. Alguns adultos autistas que foram submetidos a seu método concluíram que, ao serem obrigados a agir como seus colegas, acabaram sofrendo mais traumas e ansiedades que carregaram pelo resto da vida.

Para Barry Prizant, co-criador de um novo modelo educacional para crianças com autismo, o problema com abordagens como a de Lovaas é que elas “tratam a pessoa como um problema a ser resolvido e não como um indivíduo que precisa ser compreendido”.

Ao se perguntarem por que uma criança autista está se comportando de uma certa maneira, pais e médicos aprendem a identificar a fonte dessa confusão emocional e podem melhorar o entorno. Isso resulta em uma mudança de comportamento mais duradoura, assim como um entendimento mais profundo das qualidades e desafios daquela criança.

Mito 4: Estamos diagnosticando crianças bizarras com um distúrbio da moda

A ideia mais subversiva embutida no conceito de espectro do autismo, introduzido por Lorna Wing, é a de que indivíduos não autistas também possuem características que ajudam a definir o autismo, em diferentes níveis.

Dizemos que autistas estão o tempo todo “procurando estímulos”, enquanto os não autistas são “irrequietos”. Os autistas têm “interesses especiais” e “obsessões”, mas não autistas têm “hobbies” e “paixões”.

Os autistas sofrem de “sensibilidades sensoriais”, mas não autistas podem dizer que não suportam usar roupa sintética. Ou seja, há uma enorme área cinza entre o autismo e o não-autismo.

Para os cientistas, as pessoas que vivem nessa área incerta se enquadram no fenótipo amplo do autismo. Mas, na maior parte do tempo, elas são apenas consideradas excêntricas.

Diagnosticar à distância alguns geeks famosos se tornou uma espécie de esporte coletivo. Steve Jobs, Mark Zuckerberg, Lionel Messi, entre tantos outros, já foram objeto de questionamentos.

No entanto, se bilionários e personalidades como essas estão no espectro do autismo, por que uma quantidade desproporcional de adultos autistas tem dificuldades para se manter financeiramente? Por que as famílias dizem precisar de mais recursos para seus filhos?

O autismo é uma deficiência – aliás, uma deficiência profunda e penetrante que afeta quase todos os aspectos da vida. E mudar para acomodar a deficiência é algo que a sociedade sabe fazer.

*Steve Silberman é jornalista e autor de NeuroTribes: The Legacy of Autism and the Future of Neurodiversity (“Neurotribos: O legado do autismo e o futuro da neurodiversidade”).

Fonte: BBC/Brasil

John Lennon e o movimento feminista

John Lennon e o movimento feminista

Camila Santos

Muitos conhecem John Lennon, certamente, o esplêndido cantor, conceituado compositor dos Beatles, homem polêmico, nascido em Liverpool que morreu assassinado por um fã em 1980, mas poucos sabem o quão importante ele foi para a história das mulheres na década de 70.

John Lennon era de fato polêmico, mas era também um formador de opinião. Suas polêmicas fez as pessoas refletirem em uma época em que muitos se calavam, principalmente as mulheres.

Por Camila Santos

Muitos conhecem John Lennon, certamente, o esplêndido cantor, conceituado compositor dos Beatles, homem polêmico, nascido em Liverpool que morreu assassinado por um fã em 1980, mas poucos sabem o quão importante ele foi para a história das mulheres na década de 70.

John Lennon era de fato polêmico, mas era também um formador de opinião. Suas polêmicas fez as pessoas refletirem em uma época em que muitos se calavam, principalmente as mulheres.

Capa do disco “A Mulher É O Negro do Mundo”

Nas décadas de 1960 e 70 as mulheres estavam tentando conquistar seu espaço na sociedade, saíram nas ruas reivindicando seus direitos, eles dados aos homens, queriam a igualdade dos gêneros, luta essas que as mulheres até hoje as mulheres reivindicam.

Mas aonde John Lennon entra nessa história? Pois bem, em 1972, já com sua carreira solo e a luta feminista ainda a flor da pele das pessoas, Lennon lança juntamente com sua mulher Yoko Ono uma música chamada “Woman Is the Nigger of the World” em português “A Mulher é o Negro do Mundo”

Foi de grande importância para a reflexão das pessoas na época, a música se trata como uma referência dos escravos sendo igualados as mulheres, como os homens e a mídia as tratavam na época, o machismo das sociedades. A música tem uma mensagem forte e de grande afrontamento para uma sociedade extremista e conservadora que rebaixava as mulheres.

Fonte: Universidade do Cotidiano

A urgência de uma alternativa

A urgência de uma alternativa

Plínio Arruda Sampaio – 16/04/2018

Manifestação Popular no Rio

O processo que culmina com a condenação e prisão de Lula agrava a crise terminal da Nova República e catalisa a derrocada do lulismo. Os dois fenômenos confundem-se e reforçam-se reciprocamente. Eles revelam a absoluta impossibilidade de conciliar capitalismo, democracia e igualdade social nas economias de origem colonial submetidas a violentos processos de reversão neocolonial.

A falência do pacto político materializado na Constituição de 1988 transforma a política nacional num pântano. A célere punição de Lula, quando os processos contra Renan, Jucá, Temer e Aécio permanecem indefinidamente engavetados, escancara os atropelos, a seletividade e a impunidade que caracterizam um sistema judiciário arbitrário que, no melhor estilo “para os amigos, tudo, para os inimigos, a lei”, funciona com rigor máximo para os pobres, com total leniência para os ricos e de maneira casuística para os que não são amigos do rei.

As pressões sobre as decisões do Supremo, tanto as oriundas das Forças Armadas pela punição de Lula como as provenientes do partido da “estanca a sangria” pela impunidade dos políticos corruptos, revelam a precariedade das instituições que deveriam dar sustentação à República. A indiferença, mas, sobretudo, a passividade da população em relação à prisão do ex-presidente indicam a profunda descrença das massas no sistema político.

Por fim, a ausência do principal candidato do pleito presidencial de 2018 compromete ainda mais a já ínfima legitimidade do sistema político.

A crise do padrão de dominação é estrutural e irreversível, pois, nas condições de uma profunda crise econômica, a polarização da luta de classes inviabiliza a conciliação entre o capital e o trabalho.

Para os de cima, a democracia brasileira é excessiva e deve ser reduzida. A guerra aberta contra os trabalhadores como forma de recomposição do padrão de acumulação de capital exige que a vontade política da classe trabalhadora seja anulada. A preocupação política do andar de cima é como conter a rebeldia dos de baixo.

Para os de baixo, o espaço democrático é insuficiente e deve ser ampliado. A materialização da luta por direitos sociais requer o fim dos privilégios seculares responsáveis pela reprodução do regime de segregação social. Foi essa a mensagem inequívoca da juventude que protagonizou as Jornadas de Junho de 2013, da primavera das mulheres de 2015 que contribuiu para a queda de Eduardo Cunha, dos estudantes que ocuparam as escolas em 2016, dos trabalhadores que fizeram a greve geral de abril de 2017, da população que saiu às ruas em março de 2018 para protestar contra o assassinato de Marielle e Anderson e dos funcionários públicos paulistanos, professores da rede municipal à frente, que, com suas manifestações maciças, derrotaram o projeto de reforma da previdência de Dória.

A prisão do ex-presidente acelera a exaustão do lulismo como referência política da classe trabalhadora brasileira. Mesmo com a presença de três candidatos à Presidência da República e de toda a liderança do movimento social que gravita em torno do PT, no momento decisivo a massa trabalhadora não compareceu ao Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo. A liderança nas pesquisas eleitorais para a Presidência da República não se traduziu em solidariedade concreta. Os trabalhadores não perdoaram as traições que os deixaram desarmados para enfrentar a ofensiva do capital contra seus direitos.

Destituído da energia que brota das ruas, o lulismo foi reduzido à absoluta impotência. Pensando muito mais em sua própria conveniência do que nos interesses estratégicos dos trabalhadores, Lula tirou as consequências práticas da situação. No momento derradeiro, seguiu as instruções de seus advogados e apresentou-se docilmente à Polícia Federal.

Sem coragem para ultrapassar os limites da ordem, Lula caiu nos braços do Jucá. Seu destino depende agora do sucesso da operação “estanca a sangria”, à espera de que “um grande acordo nacional, com o Supremo, com tudo” possa salvá-lo de uma longa temporada na cadeia.

Na esperança de virar semente, antes de abandonar o palanque Lula passou o bastão para as novas gerações. No entanto, para além de sua vontade, a crise do lulismo, com ou sem Lula, é estrutural. Ela é determinada, de baixo para cima, pelo descolamento da classe trabalhadora da ilusão de que soluções parlamentares, patrocinadas pela esquerda de uma ordem capitalista particularmente antissocial, antinacional e antidemocrática, possam resolver os problemas fundamentais do povo. Sem capacidade de mobilização social, o lulismo não sobrevive como projeto político.

A criação, o auge e o ocaso do PT confundem-se com sua capacidade de mobilização da classe trabalhadora. Nadando contra a corrente, na década de 1980, o PT conquistou seu espaço na política brasileira porque colocou o povo na rua. Acomodando-se às determinações da ordem, trilhou seu caminho para o poder nos anos 1990 porque rebaixou seu programa e desmobilizou os trabalhadores. Finalmente, em 2003, chegou ao Planalto porque firmou o compromisso explícito, formalizado na Carta aos Brasileiros, de seguir fielmente as exigências do capital e conter o descontentamento das classes subalternas.

Em 2013, atropelado pelas Jornadas de Junho, o PT perdeu toda sua funcionalidade para o capital porque não foi capaz de tirar o povo da rua. Em 2016 foi apeado do governo, sem nenhuma resistência real, porque não convocou o povo para defender sua presidente, pois sabia que o povo não iria às ruas.

No processo de progressiva acomodação às exigências do status quo, o PT rebaixou seu programa até sua completa mutação em um “melhorismo” esquálido, que o transformou na ala “menos pior” do neoliberalismo. A metamorfose do PT num partido perfeitamente enquadrado nas exigências da ordem, com todos os vícios e distorções da política burguesa, e o acirramento da luta de classes minaram as bases do longo ciclo político que transformou o partido de Lula na principal referência política da classe trabalhadora brasileira.

Nas condições históricas extraordinariamente adversas de uma sociedade integralmente submetida à lógica dos negócios, a estratégia de fazer o possível em condições impossíveis – a quintessência do lulismo – deu com os burros n’água. O círculo vicioso do subdesenvolvimento é implacável. Não surpreende que tudo que parecia sólido tenha se desmanchado no ar. As narrativas que edulcoram os governos petistas ocultam a realidade. Os problemas que envenenam a vida nacional, em todas as suas dimensões, são incompreensíveis se desvinculados das terríveis contradições gestadas nos treze anos de Lula e Dilma.

Os elevadíssimos índices de abstenção e de votos nulo e branco e o crescente recurso a formas de ação direta como meio de manifestação política revelam que os brasileiros não se sentem representados pelos partidos convencionais e buscam novas formas de expressão de suas vontades políticas. Nessas condições, a redução da política à opção binária Lula ou fascismo é uma perigosa armadilha.

Ao negar a possibilidade de uma terceira via, desconsiderando qualquer alternativa que questione os parâmetros da ordem estabelecida, a consigna “Somos todos Lula” deixa a esquerda socialista refém de uma institucionalidade historicamente condenada e de um programa político rebaixado e anacrônico. Em nome da necessidade de uma frente eleitoral entre os partidos de esquerda contra o fantasma do fascismo, prioriza-se o campo minado da disputa parlamentar de cartas marcadas, em detrimento da mobilização independente da classe trabalhadora em defesa de seus direitos imediatos e por reformas sociais estruturais.

Trata-se de uma estratégia simplesmente desastrosa, pois o único antídoto efetivamente capaz de deter a escalada autoritária é a mobilização social. Na ausência dos trabalhadores nas ruas, a ruína do sistema político abre espaço para aventuras autoritárias, seja por meios civis velados, como os ensaiados por Temer na intervenção militar na segurança do Rio de Janeiro, seja por meios militares abertamente ditatoriais, como os sugeridos por Bolsonaro e alguns generais. No entanto, sem colocar na ordem do dia a necessidade de mudanças capazes de criar as bases reais de uma sociedade democrática – programa que extrapola os limites da Frente Eleitoral -, não há como sensibilizar os trabalhadores a lutar pelas liberdades democráticas.

O núcleo da luta política gira em torno da disputa sobre o que colocar no lugar da moribunda Nova República. Existem três possibilidades históricas. O partido que se articula em torno do projeto “Estanca a sangria”, idealizado por Jucá, defende o prolongamento da agonia da Velha República por meio de uma grande conciliação nacional que coloque um ponto final na cruzada contra a corrupção. O partido do “Fora Todos reacionário”, expresso de maneira explícita por Bolsonaro e de maneira cada vez menos envergonhada pelos chefes militares, propõe a negação do resíduo democrático que ainda resta da Constituição de 1988 pela “solução ditatorial”.

Por fim, o partido das ruas, que se manifesta de maneira ainda difusa e embrionária, como ocorreu nas Jornadas de Junho de 2013 e nas crescentes manifestações de rebeldia contra o status quo, bate-se por superar a Nova República pela via da “ampliação da democracia e dos direitos sociais”, combinando Estado de direito e “igualdade substantiva”. O “Fora Todos” de baixo para cima, com conteúdo democrático e socialista, é a única resposta à crise política capaz de enfrentar a raiz dos problemas nacionais e deter o avanço da barbárie que envenena a sociedade brasileira.

O antídoto à guerra contra os trabalhadores e aos ataques contra o Estado de direito passa por mudanças econômicas, sociais e políticas de grande envergadura. Na ausência de um programa que postule abertamente a necessidade histórica da revolução democrática como única resposta civilizada à crise política nacional, o debate nacional será integralmente pautado pela agenda do capital, polarizando-se entre “conservadores”, que buscam protelar a agonia da Nova República, e “modernizadores”, que buscam em soluções autoritárias uma forma de garantir a ordem e o progresso.

No momento em que a classe trabalhadora começa a se deslocar do lulismo, em busca de outros caminhos para enfrentar a ofensiva do capital e resolver os problemas nacionais, a decisão da direção do PSOL de transformar a batalha eleitoral, organizada em torno da bandeira pela liberdade de Lula, no centro da conjuntura compromete perigosamente o mandato histórico de um partido que nasceu com a tarefa de superar o lulismo.

Mais do que nunca, a tarefa prioritária da esquerda socialista é construir um programa político, colado nas lutas concretas dos trabalhadores, que coloque na ordem do dia, como primeiro passo para a solução dos problemas fundamentais do povo, a urgência da luta por “Direitos Já!” e suas consequências necessárias, “Fim dos privilégios Já!”.

A gravidade do momento histórico exige a revolução democrática seja colocada como elemento central da conjuntura.

Fonte: Correio da Cidadania

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Plínio de Arruda Sampaio Jr. é professor do Instituto de Economia da Universidade Estadual de Campinas –(IE/UNICAMP) e militante do PSOL.