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Verde, natureza, mata, amazonia.

Cem dias após assassinato, Seu Luís é semente de luta no acampamento Marielle Vive

Cem dias após assassinato, Seu Luís é semente de luta no acampamento Marielle Vive

Por Charles Nisz

Publicado no Brasil de Fato:

Um homem tímido, trabalhador, prestativo, que aos 72 anos de idade realizava o sonho de voltar a morar na roça. Pai de oito filhos. Companheiro. Elogios e palavras carinhosas não faltam quando os moradores do Acampamento Marielle Vive, localizado em Valinhos (SP), falam sobre Luís Ferreira da Costa – morto há 100 dias, vítima de um atropelamento criminoso quando participava de uma manifestação pacífica.

O caso ocorreu em 18 de julho no quilômetro 7 da Estrada do Jequitibá, onde Luís e outros acampados do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) faziam um protesto pedindo água no acampamento, mas deixando o trânsito fluir e distribuindo alimentos e sementes aos motoristas – quando o vendedor Leo Luiz Ribeiro, dirigindo uma caminhonete Hylux L-200, avançou propositalmente sobre a manifestação e atingiu Luís. O assassino foi preso no mesmo dia.

Do luto à luta

Meses após o atropelamento, amigos e vizinhos de seu Luís ainda têm dificuldade em falar do episódio, ao qual se referem como “o acontecido” ou “aquele dia”.

“Estávamos entregando sachês de sementes com o que tínhamos produzido aqui. Era simbólico. Ele estava com a mão cheia de sementinha, estava indo entregar, foi a hora que aconteceu tudo aquilo”, recorda Sueli Alves Moreira, de 55 anos.

Sentada ao redor de uma mesa localizada entre o seu barraco e os de outros acampados, improvisando uma sala coletiva, ela conta que Luís costumava sentar ali para almoçarem juntos. “Era assim, como estamos aqui hoje… O duro é que não temos mais ele. A falta é muito grande”.

Assim como Marielle Franco, executada no Rio de Janeiro em 14 março de 2018, o pernambucano nascido no sertão do Cariri também foi assassinado por lutar por direitos e se tornou símbolo.

“Reunimos força e estamos mais firmes, mesmo com a ausência dele. Encontramos força nisso. Não pode ser em vão. Ele é o que inspira mais ainda nossa luta”, diz Sueli.

Legado

Criado um mês após o assassinato de Marielle, em 14 de abril de 2018, o acampamento que leva o nome da vereadora é construído coletivamente. Grande parte do que existe hoje contou com a ajuda de seu Luís, que trabalhou como pedreiro por toda a vida.

Segundo o MST, o terreno tem pouco mais de 130 hectares e abriga 2.400 pessoas, mais de mil famílias.

“Tudo tem a mão dele aqui”, afirma Aparecido Barbosa Sarmento, um dos coordenadores do núcleo de infraestrutura do acampamento.

O senhor de 67 anos relata que seu Luís chegou de mansinho e ganhou a confiança de todos do movimento. Quando as tarefas do dia chegavam ao fim, os dois costumavam tomar café perto de onde Luís cultivava uma horta.

“Hoje passamos lá e não vemos nada. Chegávamos no final de semana e sempre, a tardezinha, estávamos ali, batendo papo. Hoje é só o cachorrinho dele que nos acompanha… Agora, todo mundo cuida. Vamos andando e o cachorro vai junto. Parece até que está caçando ele”, diz Aparecido.

Além do cultivo de legumes, frutas e hortaliças que cada acampado tem em seu quintal, o Marielle Vive está organizando espaços coletivos de produção. A preparação de um sistema agrícola em forma de mandala, que receberá mais de seis mil mudas de hortaliças, 160 pés de bananeira e outras plantas nativas, é a grande prioridade do acampamento.

“Tenho certeza que se hoje [Luís] estivesse aqui, seria linha de frente da produção. Era uma peça chave que não podíamos ter perdido”, lamenta Aparecido.

“Ele jamais será esquecido. Jamais. Somos uma família. Da nossa memória ele não vai sair. Pode ver com qualquer companheiro, o primeiro nome que se grita é ‘seu Luís’. E a molecada responde: ‘presente, presente, presente’. Isso pra eles que são crianças… Tenho certeza que daqui 30 anos, se chegar e perguntar quem foi o seu Luís, eles vão saber explicar”.

Já Antônia Vieira Santos, primeira mulher a participar do núcleo de infraestrutura ao lado de Luís, o define como “um senhor jovem”. Segundo ela, Ferreira trabalhava com mais disposição do que muitos homens mais novos.

A serenidade para lidar com as adversidades do dia a dia no acampamento é uma das qualidades que Antônia mais admirava em seu companheiro. Ela afirma que no dia seguinte ao assassinato, o primeiro caminhão de água enviado pela prefeitura chegou ao acampamento.

“Seu Luís representa cada gota de água que vai pra cada um de nós aqui. Até hoje eu não consigo esquecer daquele dia. Ele nunca desistiu e nós também não vamos desistir. Somos companheiros. É um pelo outro”.

“Eu sou guerreiro”

Próximo a entrada do acampamento, há um espaço com diversas salas onde ocorrem reuniões, cirandas, aulas na modalidade Educação de Jovens e Adultos (EJA) e diversas atividades culturais.

Era lá que Luís realizava outro sonho: aprender a escrever. A professora Cícera Alves Bezerra diz que “ele era uma pessoa que realmente queria aprender, não faltava nenhum dia”.

Professora mostra o diploma de Seu Luis, que se alfabetizou depois dos 70 anos.

“Na véspera do acontecido, estávamos formando frases com as sílabas ‘gue’ e ‘gui’. Jogamos algumas palavras e ele formou a frase: ‘Eu sou guerreiro’. ‘Eu vou pra guerra’. E na outro dia veio o acontecido, o assassinato dele. Chocou muito a gente. Quando voltamos aqui pra sala, as frases ainda estavam na lousa. Foi muito emocionante”, conta a professora.

Assim como outros acampados, o idoso de 72 anos era ensinado pelo método cubano para alfabetização de adultos “Sim, eu posso”.

Na sala de aula, cenas voltam à cabeça da professora.

“Todo dia, no fim da aula, falávamos a palavra de ordem: ‘Sim, eu posso ler e escrever. Essa é uma conquista do MST’. E ele não conseguia fazer o ritmo e a gente ria muito. Quando ele estava começando a ingressar no ritmo, acabava”, diz, com um sorriso.

O pernambucano semianalfabeto não poderia imaginar que sua força e dedicação seriam eternizadas no Marielle Vive. O local que ajudou a construir e onde aprendeu a escrever seu nome passará por melhorias e se chamará Escola Popular Luís Ferreira. A inauguração está prevista para 2 de novembro, com a presença de Monica Benício, viúva de Marielle.

O objetivo é que o espaço continue a promover diversas atividades vinculadas à luta pela reforma agrária, assim como cursinhos populares, EJA, reforço escolar, aula de idiomas, ciranda infantil e oficinas.

Muito além da terra

Em um ano e seis meses de ocupação, os sem-terra conseguiram desenvolver dezenas de atividades coletivas que vão além da produção agroecológica e sem veneno. No Marielle Vive há espaço para auto-organização LGBT, auto-organização de mulheres, grupos culturais, discussões políticas e atividades lúdicas para as crianças.

Luciano Pereira da Silva, por exemplo, é um dos coordenadores da frente LGBT do acampamento. Ele se orgulha de seu barraco, construído com muito esforço desde o início da ocupação, onde há plantas e flores por todos os lados.

Seu objetivo é conseguir cultivar a terra e criar uma floricultura, para que outros acampados e pessoas de fora também possam enfeitar suas casas.

“A luta pela terra caminha junto com a luta contra a LGBTfobia, contra todos os tipos de preconceitos no acampamento, como racismo e o machismo. Estamos fazendo essa construção pra acabar mesmo. Inclusive com piadinhas de mau gosto. Queremos demolir isso aqui dentro”, diz Luciano.

A Frente de Cultura e Esporte, coordenada pelos jovens do acampamento, garante atividades para todos os moradores. A futura Escola Popular Luís Ferreira recebe aulas de músicas, aulas de capoeira e yoga. No “campinho” do acampamento, acontece o futebol.

“Aqui todo mundo entra de uma forma e sai de outra. Não estamos aqui ocupando por ocupar”, ressalta Sara Juliana, uma das coordenadoras da frente cultural.

Na opinião de Francisco Rumalt Alves, pela cultura também se fortalece a resistência. “Quando começamos a cantar música, todo mundo começa a cercar a gente, a cantar e a pular. Vemos aquela energia, todo mundo é muito bem acolhido. Isso é resistir, nunca perdemos nosso sorriso. Estamos aqui fazendo nossa luta, sendo protagonista da nossa própria história. Aqui todo dia você vai pra guerra”.

Despejo e perseguição

Os moradores do Marielle Vive enfrentaram e venceram uma primeira batalha judicial há um ano, após a suspensão de um pedido de reintegração de posse feito pelo grupo Fazenda Eldorado Empreendimentos Imobiliários, que possui um contrato de arrendamento das terras para criação de gado.

Na análise do Tribunal de Justiça, que cancelou o primeiro pedido de despejo, não houve comprovação da posse por parte dos supostos proprietários.

Com a ajuda da Defensoria Pública, o MST luta para que o terreno que abriga mais de duas mil pessoas seja destinado à reforma agrária. Patrícia Maria, uma das coordenadoras do acampamento e da direção estadual do MST em São Paulo, explica que o movimento “deu vida a um espaço que era morto”.

“Essa área era totalmente improdutiva. Não tinha nenhum vestígio de produção, nem de alimento e nem de gado. Essa área estava abandonada há mais de 20 anos”, destaca Patrícia.

A Defensoria Pública, os advogados do MST e os acampados agora enfrentam um novo pedido de reintegração de posse.

“Conseguimos uma suspensão dessa reintegração até dia 2 de dezembro. Estamos com a produção, com a organização interna e com esse processo jurídico para que o Estado reconheça que estamos em um processo justo. Está previsto na Constituição brasileira que toda terra improdutiva deve ser destinada à reforma agrária. Esperamos que o desembargador considere toda essa luta por terra das famílias e dê mais um prazo ou a permanência das famílias aqui no Marielle Vive”, explica Patrícia.

Outras dificuldades

Além da ameaça de despejo, os moradores enfrentam outros problemas. Por exemplo, os caminhões-pipa de água enviados pela prefeitura de Valinhos não atendem toda a demanda dos acampados. Há também relatos de não atendimento na rede de saúde pública da região, por não aceitarem o endereço do acampamento como residência oficial.

Há ainda uma denúncia mais grave: policiais militares e guardas municipais abordam com frequência os moradores, sem justificativa. Eles relatam que já tiveram documentos rasgados, como a carteirinha de identificação e controle do próprio acampamento.

Em agosto deste ano, o Conselho Estadual de Defesa de Direitos da Pessoa Humana (Condepe) publicou um parecer que registrou as denúncias afirmadas à reportagem do Brasil de Fato. Mesmo após o posicionamento do órgão, os abusos teriam continuado.

Na visão de Patrícia Maria, a força para que os sem-terra continuem a resistir em Valinhos é também fomentada pela esperança.

“Temos a esperança de mudança. A esperança de que as pessoas tenham direito à terra, que consigamos um dia, nesse país, fazer reforma agrária e as transformações sociais necessárias para um Brasil mais justo. A Marielle, em vários momentos, nos deu essa força. Todos nossos trabalhadores tombados… Mas o seu Luís também”, diz, entre lágrimas.

Fonte: Diário do Centro do Mundo

Outubro Rosa

Desgoverno Bolsonaro mente como sempre

Desgoverno Bolsonaro mente como sempre

Bolsonaro na ONU: checamos o discurso do presidente na Assembleia Geral

por CHICO MARÉS MAURÍCIO MORAES e NATHÁLIA AFONSO

Rio de Janeiro | lupa@lupa.news

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Bolsonaro participou da Assembleia Geral da ONU | Foto: Valter Campanato / Agência Brasil

Bolsonaro na ONU: checamos o discurso do presidente na Assembleia Geral

porCHICO MARÉSMAURÍCIO MORAESeNATHÁLIA AFONSORio de Janeiro | lupa@lupa.news24.SET.2019 | 12H07 |

O presidente Jair Bolsonaro abriu, nesta terça-feira (24), a 74ª Assembleia Geral da Organização das Nações Unidas, em Nova York, com um discurso duro. Ao longo de aproximadamente 30 minutos, atacou diferentes países – entre eles, Cuba, Venezuela e França. Em seguida, criticou a postura do G7, o grupo das nações mais ricas do mundo, com relação às queimadas na Amazônia e afirmou que o mundo não conhece a verdade sobre o Brasil. Bolsonaro também agradeceu o apoio, em especial, dos Estados Unidos e de Israel.

Lupa acompanhou a fala do presidente e conferiu o grau de veracidade de algumas de suas frases. A assessoria do Palácio do Planalto foi procurada e afirmou que não comentaria as checagens. O conteúdo a seguir pode ser atualizado a qualquer momento e faz parte de uma aliança internacional para verificar discursos feitos por políticos na ONU ao longo desta semana. Leia a seguir a avaliação de Bolsonaro e acompanhe a hashtag #UNAssemblyFacts nas redes sociais:

“Em 2013, o acordo entre o governo petista e a ditadura cubana trouxe ao Brasil 10 mil médicos”
Jair Bolsonaro, presidente da República, no discurso de abertura da 74ª Assembleia Geral da ONU, em 24 de setembro de 2019EXAGERADO

Em agosto de 2013, quando o programa Mais Médicos começou, apenas 391 profissionais cubanos foram enviados ao Brasil, segundo dados disponíveis no Sistema Integrado de Informação Mais Médicos, mantido pela Organização Panamericana de Saúde (Opas). Com o avançar do tempo, o número cresceu gradualmente. Em dezembro daquele ano, chegou a 5,3 mil médicos vindos de Cuba. 

O total só ultrapassou os 10 mil citados por Bolsonaro na ONU em março de 2014, quando o Mais Médicos chegou a ter 11,1 mil profissionais cubanos. Essa quantidade foi mantida, com pequenas variações, até abril de 2016. 

Com o afastamento da presidente Dilma Rousseff (PT), em maio de 2016, e sua substituição por Michel Temer (MDB), o total de médicos de Cuba começou a cair. 

A linha do tempo registra uma queda brusca em junho de 2016, para 10.129 profissionais, e outra em dezembro de 2016, quando o total de médicos caiu para 8.562. O número acabou se estabilizando em pouco mais de 8 mil até o encerramento da cooperação internacional, em novembro de 2018. Na época, o programa contava com 8,3 mil médicos cubanos.


“[Médicos cubanos que integravam o Mais Médicos chegaram ao Brasil] Sem nenhuma comprovação profissional”
Jair Bolsonaro, presidente da República, no discurso de abertura da 74ª Assembleia Geral da ONU, em 24 de setembro de 2019FALSO

Lei 12.871/2013, que instituiu e regulava o programa Mais Médicos, exigia que todos os médicos formados no exterior – incluindo os cubanos – apresentassem “diploma expedido por instituição de educação superior estrangeira” e “habilitação para o exercício da Medicina no país de sua formação”.

Essa não é a primeira vez que o presidente Jair Bolsonaro afirma que os médicos cubanos que participaram do Programa Mais Médicos não tinham comprovação profissional. Em 14 de novembro de 2018, Bolsonaro concedeu uma coletiva e disse o seguinte: “não temos qualquer comprovação de que eles (os médicos cubanos) sejam realmente médicos e estejam aptos a desempenhar a sua função”. Na época, a Lupa verificou essa informação e constatou que ela era falsa.

Os profissionais estrangeiros que foram contratados pelo Mais Médicos foram dispensados de fazer o Revalida, exame de revalidação do diploma. Entretanto, ao contrário do que o presidente repete, tiveram – sim – que comprovar sua formação.


“[Os médicos cubanos que participavam do programa Mais Médicos] Foram impedidos de trazer cônjuges e filhos”
Jair Bolsonaro, presidente da República, no discurso de abertura da 74ª Assembleia Geral da ONU, em 24 de setembro de 2019FALSO

Lei 12.871/2013, que instituiu e regulamentou o programa Mais Médicos indica que “o Ministério das Relações Exteriores poderá conceder o visto temporário (…) aos dependentes legais do médico intercambista estrangeiro, incluindo companheiro ou companheira, pelo prazo de validade do visto do titular”. Além disso, não existe nenhum acordo entre os governos brasileiro e cubano que impeça médicas cubanas de trazer seus filhos para o Brasil caso venham a participar do Mais Médicos. Essa informação foi confirmada pela  Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS), que apoia ações do Mais Médicos.


“61% do nosso território é preservado”
Jair Bolsonaro, presidente da República, no discurso de abertura da 74ª Assembleia Geral da ONU, em 24 de setembro de 2019VERDADEIRO, MAS

Em janeiro deste ano, a Embrapa divulgou um estudo que mostrou que o Brasil tinha 632 milhões de hectares de vegetação nativa, o que significa que  66,3% do território era preservado e protegido. Segundo a entidade, a título de comparação, essa área correspondia, a “43 países e 5 territórios da Europa.” 

Em dezembro de 2017, um levantamento feito pela Nasa mostrou dados semelhantes. Na época, o Brasil preservava e protegia 66% de seu território. Por fim, o último dado divulgado pela Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO) apontava que o Brasil preservava 58,9% de seu território em 2016. De todos estudos consultados pela Lupa, esse é o mais antigo.

 Embora o país conserve a maior parte de seu território é importante destacar que as áreas de preservação vêm diminuindo nos últimos 32 anos. O projeto MapBiomas mostra que o Brasil teve uma perda líquida (perda total com a subtração da recuperação) de 71 milhões de hectares de vegetação nativa. A floresta natural brasileira correspondia a 594 milhões de hectares em 1985 e este total caiu para 523 milhões de hectares em 2017. Segundo o Observatório do Clima, a área de preservação perdida equivale aos estados de São Paulo, Paraná, Rio de Janeiro e Espírito Santo juntos. 


“Em apenas oito meses, concluímos (..) [os acordos de livre comércio]: Mercosul e União Europeia, Mercosul e EFTA [Associação Europeia de Livre Comércio]”
Jair Bolsonaro, presidente da República, no discurso de abertura da 74ª Assembleia Geral da ONU, em 24 de setembro de 2019EXAGERADO

No dia 28 de junho, Mercosul e União Europeia fecharam o acordo de livre-comércio que estava sendo negociado desde 1992. Entretanto, isso não significa que o processo tenha sido concluído. Para entrar em vigor, o acordo ainda precisa ser aprovado pelo Conselho e pelo Parlamento europeu e pelos parlamentos dos países do Mercosul. Vale ressaltar, por exemplo que, na semana passada, o parlamento da Áustria aprovou uma moção determinando veto ao acordo.

O mesmo vale para o acordo entre Mercosul e EFTA, grupo formado por quatro países europeus que não fazem parte da União Europeia: Suíça, Noruega, Liechtenstein e Islândia. O tratado, cujas conversas se iniciaram em 2017, foi concluído no dia 23 de agosto.


“O Foro de São Paulo, organização criminosa criada (…) para difundir e implementar o socialismo na América Latina”
Jair Bolsonaro, presidente da República, no discurso de abertura da 74ª Assembleia Geral da ONU, em 24 de setembro de 2019FALSO

O Foro de São Paulo é uma aliança internacional de 120 partidos políticos e movimentos sociais de esquerda, de 26 países latino-americanos. No Brasil, são seis partidos políticos que fazem parte deste grupo: PDT, PCB, PCdoB, PPL, Cidadania e PT. O PSB deixou a organização no mês passado em protesto ao apoio da organização ao regime de Nicolás Maduro na Venezuela. O Cidadania (antigo PPS), embora siga listado como um membro da organização, diz não participar dos debates desde, pelo menos, 2004.

Não há qualquer evidência que qualifique a organização, em si, como criminosa, embora partidos de países ditatoriais, como o Partido Comunista de Cuba e o Partido Socialista Unificado da Venezuela (PSUV, de Nicolas Maduro), estejam entre os membros. As Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc) chegaram a participar de reuniões, mas nunca foram consideradas formalmente parte do grupo – o PT, inclusive, tentou impedir sua participação, segundo relatos de dirigentes da guerrilha colombiana.

A organização não tem como finalidade “implantar o socialismo” na América Latina. Há partidos de vertentes progressistas não-marxistas na organização, incluindo partidos humanistas e trabalhistas.

Organizações internacionais de partidos não são ilegais, e são relativamente comuns em todos os espectros da política. O PSDB, como observador, e o DEM, por exemplo, fazem parte da Internacional Democrata Centrista (CDI, da sigla em inglês). 73 partidos fazem parte, hoje, da Internacional Conservadora, que reúne movimentos conservadores, liberais e de centro-direita.


“A França e a Alemanha, por exemplo, usam mais de 50% de seus territórios para a agricultura (…)”
Jair Bolsonaro, presidente da República, no discurso de abertura da 74ª Assembleia Geral da ONU, em 24 de setembro de 2019VERDADEIRO

Segundo a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO), os dois países citados usam mais de 50% de seu território para a produção agropecuária. Na França, são 28,7 milhões de hectares para esse fim, de um total de 54,8 milhões de hectares de área terrestre, o equivalente a 52,4% do total. Desses 28,7 milhões, 19,4 milhões são para plantações (em alguns casos, com uso temporário para pecuária) e outros 9,2 milhões permanentemente para a pecuária.

Já na Alemanha, 18,1 milhões de hectares são usados para a produção agrícola. Isso representa 51,7% da área terrestre total do país, que é de 34,9 milhões de hectares. 12 milhões são para lavouras, em alguns casos com uso temporário para pecuária, e 4,7 milhões para a produção de animais. Os dados são de 2017.


“(…) O Brasil usa apenas 8% do seu território para a produção de alimentos”
Jair Bolsonaro, presidente da República, no discurso de abertura da 74ª Assembleia Geral da ONU, em 24 de setembro de 2019FALSO

O número citado por Bolsonaro não se refere ao uso da terra para a produção de alimentos, mas sim ao uso da terra para lavouras. Esse número não inclui o território utilizado para a pecuária ou para pomares e plantações permanentes.

Segundo a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO), o Brasil usa 235,9 milhões de hectares para a agropecuária. Isso representa 28,2% da área terrestre do Brasil, calculada em 835,8 milhões de hectares – ou 8,35 milhões de quilômetros quadrados. A maioria desse território é utilizado para a pecuária: 172,6 milhões hectares, ou 20,6% do total. Outros 63,4 milhões de hectares, ou 7,6% do território nacional, são usados para plantações. Os dados são de 2017.

Editado por: Natália Leal

Fonte: Lupa Piauí

Os jovens ativistas frente à crise ecológica do século 21

Os jovens ativistas frente à crise ecológica do século 21

A resposta política dos jovens na Cúpula sobre o Clima será provocativa para o poder patriarcal das negociações oficiais. Se a origem da ameaça é a ordem econômica predatória global, as vítimas são os mais vulneráveis, em especial as mulheres e meninas

DEBORA DINIZ|GISELLE CARINO

Um incêndio no bosque de Pozuzo, em Peru.
Um incêndio no bosque de Pozuzo, em Peru.L. FERNANDEZ (GETTY)

A Cúpula do Clima das Nações Unidas convoca uma mudança nas economias para a proteção do planeta. A proposta do encontro pede que a transformação econômica respeite os objetivos do desenvolvimento sustentável. Há, tristemente, muita timidez na sua convocatória: não se nomeia o regime econômico que espolia os recursos naturais, favorece a guerra ou põe populações em movimento migratório forçado. O capitalismo global é nome proibido para que líderes políticos se reúnam para “reduzir o efeito estufa em 45% na próxima década, e eliminá-lo até 2050”. As linhas de ação da Cúpula do Clima foram organizadas em portfólios que estão vinculados ao ciclo de produção capitalista da riqueza e seus impactos na água, na comida ou no ar que respiramos.

Os descritores dos portfólios são como títulos de um manual de economia industrial global (“finanças”, “transição de energia”, “transição industrial”, “soluções baseadas na natureza”). Os efeitos sociais da exploração capitalista na vida são traçados como “cidades e ação local”, “resiliência e adaptação”. Aos pobres das cidades coube a “resiliência”, essa palavra deslizada da psicanálise para o mundo dos negócios e daí para a diplomacia global. Resiliência é como um pedido de paciência submissa aos expulsos das terras, das guerras ou da falta de proteção social pelos governos, como descreve Sassia Sasken, em “Expulsões”. Os expulsos não são apenas os imigrantes venezuelanos que atravessam a fronteira da Colômbia todos os dias, mas também os camponeses desapropriados nas favelas do Rio de Janeiro ou os adolescentes que fogem dos conflitos urbanos de El Salvador para a fronteira com os Estados Unidos. Nem todos os expulsos experimentam o desterro do capitalismo global da mesma maneira: para alguns, não há retorno, pois não há casa que os espere de volta.

Essa gente que caminha ou navega em fuga, chamada grosseiramente de “imigrante ilegal” pelos países que constroem muros ou fecham fronteiras, são “vidas nuas”, o corpo exposto em toda sua precariedade, como dizia Giorgio Agamben sobre os judeus nos campos de concentração nazistas. São corpos expostos à exploração plena da vulnerabilidade, como as crianças à espera de uma solução para o desamparo na fronteira entre o México e os Estados Unidos. O chamado para a ação da Cúpula do Clima não nomeia os corpos vitimados pela espoliação do meio-ambiente, apenas faz referência a dois grupos populacionais específicos: as mulheres e os jovens.

O plano de negócios global para o meio ambiente deve “incluir as mulheres como tomadoras de decisão”, diz o documento. Nesse ponto, o texto é ousado para líderes globais de negacionismo climático e de cruzada anti-gênero: “somente os processos de tomada de decisão que forem sensíveis à diversidade de gênero terão condições de responder às diferentes necessidades que surgirão neste período crítico de transformação”. Estudos já mostraram como as mulheres e as meninas são desproporcionalmente afetadas pelos processos de expulsão, sejam eles climáticos ou sociais: são as primeiras a abandonarem a escola, são as com mais altas taxas de subnutrição, correm permanente risco de exploração sexual ou casamento forçado.

Em uma linguagem típica à diplomacia em temas sensíveis, aos seis portfólios foram acrescentadas outras três áreas centrais, e uma delas é “engajamento da juventude e mobilização pública”. A inclusão não foi acidental, mas resultado da força demonstrada por jovens ativistas à “crise ecológica do século 21” como sendo a expressão da “segunda contradição do capitalismo”. Figuras como a sueca, Greta Thunberg, que deu origem ao “Fridays for the Future”, ou Jamie Margolin, filha de imigrante colombiana que movimenta vozes interseccionais no ativismo, são esperadas na Cúpula da Juventude para o Clima, no dia 21 de setembro.

O que os jovens ativistas mostram é que há uma ameaça existencial na crise ecológica global. Se a origem da ameaça é a ordem econômica predatória global, as vítimas são as populações mais vulneráveis, entre elas as mulheres e meninas. A resposta não poderá ser fragmentada, mas complexa como propõe Jamie Margolin, “eu não ponho o clima acima de outros temas, porque clima é Black Lives Matter, é o movimento feminista, são os direitos LGBT…quando se está comprometido com a justiça climática, se está coletivamente lutando pela liberação de todas as pessoas que são vítimas desses sistemas de opressão”. Na Suécia, a Universidade Chalmers de Tecnologia criou o primeiro centro mundial para estudar os negacionistas climáticos e o movimento ultradireitista de perseguição ao feminismo. Para os pesquisadores, os dois grupos precisam ser entendidos em suas raízes de fragilização da masculinidade no capitalismo global. Acreditamos no mesmo, por isso a resposta política dos jovens na Cúpula do Clima será provocativa para o poder patriarcal das negociações oficiais: em vários cantos do mundo, movimentos antisistêmicos marcharão em passeatas com linguagens complexas à crise climática. Não se renderão à resiliência da sobrevivência.

Debora Diniz é antropóloga brasileira, pesquisadora da Universidade de Brown.

Giselle Carino é argentina, cientista política, diretora da IPPF/WHR. 

Fonte: ElPaísBR

Atos contra Bolsonaro no 7 de Setembro já têm cerca de 100 cidades confirmadas

Atos contra Bolsonaro no 7 de Setembro já têm cerca de 100 cidades confirmadas

O número de cidades confirmadas para os atos deste sábado (7), dia em que se comemora a Independência do Brasil, já se aproxima de 100 e o presidente da União Nacional dos Estudantes (UNE), Iago Montalvão, alega que novas confirmações ainda devem chegar.

O número de cidades confirmadas para os atos deste sábado (7), dia em que se comemora a Independência do Brasil, já se aproxima de 100 e o presidente da União Nacional dos Estudantes (UNE), Iago Montalvão, alega que novas confirmações ainda devem chegar. Capitais de todos os estados do país terão manifestações com o objetivo de pressionar o governo de Jair Bolsonaro (PSL) contra os desmontes na educação, na democracia, nos empregos, na aposentadoria e no meio ambiente.

Montalvão comentou que está com grandes expectativas para os atos, apesar de ser a primeira vez que a entidade organiza uma manifestação de final de semana. Porém, ele aponta que, devido ao movimento que teve nas redes sociais propondo ir às manifestações de preto, “acreditamos que podem ser grandes atos, com muito público. Talvez até mais do que 2 milhões de pessoas”.

A ideia de comparecer aos atos do sábado de preto veio como resposta ao pedido do presidente para que as pessoas usassem cores da bandeira nacional nas festividades da data. Dessa forma, estudantes espalharam a orientação para que os manifestantes usem preto, seguindo o exemplo dos caras-pintadas de 1992. A tag #Dia7EuVoudePreto foi um dos assuntos mais comentados no Twitter nessa quinta (5) e sexta-feira (6).

Montalvão contou que o retorno dessa mobilização realmente foi grande. “Tivemos um retorno imenso, as pessoas falando que vão de preto, muita gente nos procurando. Acho que vai ser um dia bonito, do ponto de vista visual, onde nós vamos exaltar o verde e amarelo, mas o preto também, como forma de indignação”, completou.

Além da União Nacional dos Estudantes (UNE), que sofre ataques diretos do governo de Bolsonaro, os atos também contam com o apoio da União Brasileira de Estudantes Secundaristas (UBES) e da Associação Nacional de Pós-Graduandos (ANPG). As manifestações terão como um dos alvos prioritários as negligências do governo com relação à Amazônia, cuja pasta terá corte de 34% na verba para combate de incêndios em 2020, além dos cortes na Capes e contingenciamento nas universidades federais.

“É um governo que patina e que, quando deveria focar em educação, não foca. As universidades estão a ponto de serem paralisadas, as bolsas sendo cortadas, é o futuro do nosso país, da nossa ciência, da nossa produção, sendo completamente entregues”, completou.

Fonte: Revista Fórum

Setembro Amarelo

ABI pede proteção a repórter que denunciou Dia do Fogo

ABI pede proteção a repórter que denunciou Dia do Fogo

Foto: Fernando Frazão/Agência Brasil

Adécio Piran alertou para o “Dia do Fogo” na Amazônia cinco dias antes dele acontecer e tem sofrido ameaças de ruralistas

A Associação Brasileira de Imprensa enviou ofício neste domingo ao governador do Pará, Helder Barbalho, pedindo a proteção ao jornalista Adécio Piran, que estaria sofrendo ameaças por ter feito uma reportagem denunciando que o “Dia do Fogo” de Novo Progresso (PA) ia acontecer.

Adécio Piran é editor do jornal Folha do Progresso, de Novo Progresso, e publicou no dia 5 de agoto que aconteceria um “Dia do Fogo” em 10 de agosto, quando produtores e/ou criadores da região da BR-163 decidiram colocar fogo nas margens da estrada.

Na carta, a ABI pede “o empenho pessoal do governador e de todo o seu governo para garantir a vida do jornalista e a manutenção do jornal, uma vez que anunciantes também estariam sendo pressionados de forma a inviabilizar economicamente a publicação”.

A associação destaca que as ameaças começaram após repercussão internacional da notícia. “As ameaças ao jornalista só ocorreram depois que a notícia por ele divulgada no dia 5 de agosto teve repercussão internacional. Isto ocorreu por conta do trabalho de reportagem da revista Globo Rural que, ao saber da informação sobre o Dia do Fogo, buscou informações no Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais – INPE confirmando o aumento considerável das queimadas no dia 10 de agosto- a tal Data do Fogo – na região de Novo Progresso”, disse.

A ABI destaca ainda que a matéria de Adécio fez o procurador da República de Itaituba (PA), Paulo de Tarso Moreira Oliveira, “buscar informações antecipadamente junto ao Ibama da região sobre as providências para se evitar as queimadas, mas descobriu que os ficais não receberam ajuda nem da Polícia Militar nem da Força Nacional”.

Fonte: Revista Forum

Setembro Amarelo