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Os jovens ativistas frente à crise ecológica do século 21

Os jovens ativistas frente à crise ecológica do século 21

A resposta política dos jovens na Cúpula sobre o Clima será provocativa para o poder patriarcal das negociações oficiais. Se a origem da ameaça é a ordem econômica predatória global, as vítimas são os mais vulneráveis, em especial as mulheres e meninas

DEBORA DINIZ|GISELLE CARINO

Um incêndio no bosque de Pozuzo, em Peru.
Um incêndio no bosque de Pozuzo, em Peru.L. FERNANDEZ (GETTY)

A Cúpula do Clima das Nações Unidas convoca uma mudança nas economias para a proteção do planeta. A proposta do encontro pede que a transformação econômica respeite os objetivos do desenvolvimento sustentável. Há, tristemente, muita timidez na sua convocatória: não se nomeia o regime econômico que espolia os recursos naturais, favorece a guerra ou põe populações em movimento migratório forçado. O capitalismo global é nome proibido para que líderes políticos se reúnam para “reduzir o efeito estufa em 45% na próxima década, e eliminá-lo até 2050”. As linhas de ação da Cúpula do Clima foram organizadas em portfólios que estão vinculados ao ciclo de produção capitalista da riqueza e seus impactos na água, na comida ou no ar que respiramos.

Os descritores dos portfólios são como títulos de um manual de economia industrial global (“finanças”, “transição de energia”, “transição industrial”, “soluções baseadas na natureza”). Os efeitos sociais da exploração capitalista na vida são traçados como “cidades e ação local”, “resiliência e adaptação”. Aos pobres das cidades coube a “resiliência”, essa palavra deslizada da psicanálise para o mundo dos negócios e daí para a diplomacia global. Resiliência é como um pedido de paciência submissa aos expulsos das terras, das guerras ou da falta de proteção social pelos governos, como descreve Sassia Sasken, em “Expulsões”. Os expulsos não são apenas os imigrantes venezuelanos que atravessam a fronteira da Colômbia todos os dias, mas também os camponeses desapropriados nas favelas do Rio de Janeiro ou os adolescentes que fogem dos conflitos urbanos de El Salvador para a fronteira com os Estados Unidos. Nem todos os expulsos experimentam o desterro do capitalismo global da mesma maneira: para alguns, não há retorno, pois não há casa que os espere de volta.

Essa gente que caminha ou navega em fuga, chamada grosseiramente de “imigrante ilegal” pelos países que constroem muros ou fecham fronteiras, são “vidas nuas”, o corpo exposto em toda sua precariedade, como dizia Giorgio Agamben sobre os judeus nos campos de concentração nazistas. São corpos expostos à exploração plena da vulnerabilidade, como as crianças à espera de uma solução para o desamparo na fronteira entre o México e os Estados Unidos. O chamado para a ação da Cúpula do Clima não nomeia os corpos vitimados pela espoliação do meio-ambiente, apenas faz referência a dois grupos populacionais específicos: as mulheres e os jovens.

O plano de negócios global para o meio ambiente deve “incluir as mulheres como tomadoras de decisão”, diz o documento. Nesse ponto, o texto é ousado para líderes globais de negacionismo climático e de cruzada anti-gênero: “somente os processos de tomada de decisão que forem sensíveis à diversidade de gênero terão condições de responder às diferentes necessidades que surgirão neste período crítico de transformação”. Estudos já mostraram como as mulheres e as meninas são desproporcionalmente afetadas pelos processos de expulsão, sejam eles climáticos ou sociais: são as primeiras a abandonarem a escola, são as com mais altas taxas de subnutrição, correm permanente risco de exploração sexual ou casamento forçado.

Em uma linguagem típica à diplomacia em temas sensíveis, aos seis portfólios foram acrescentadas outras três áreas centrais, e uma delas é “engajamento da juventude e mobilização pública”. A inclusão não foi acidental, mas resultado da força demonstrada por jovens ativistas à “crise ecológica do século 21” como sendo a expressão da “segunda contradição do capitalismo”. Figuras como a sueca, Greta Thunberg, que deu origem ao “Fridays for the Future”, ou Jamie Margolin, filha de imigrante colombiana que movimenta vozes interseccionais no ativismo, são esperadas na Cúpula da Juventude para o Clima, no dia 21 de setembro.

O que os jovens ativistas mostram é que há uma ameaça existencial na crise ecológica global. Se a origem da ameaça é a ordem econômica predatória global, as vítimas são as populações mais vulneráveis, entre elas as mulheres e meninas. A resposta não poderá ser fragmentada, mas complexa como propõe Jamie Margolin, “eu não ponho o clima acima de outros temas, porque clima é Black Lives Matter, é o movimento feminista, são os direitos LGBT…quando se está comprometido com a justiça climática, se está coletivamente lutando pela liberação de todas as pessoas que são vítimas desses sistemas de opressão”. Na Suécia, a Universidade Chalmers de Tecnologia criou o primeiro centro mundial para estudar os negacionistas climáticos e o movimento ultradireitista de perseguição ao feminismo. Para os pesquisadores, os dois grupos precisam ser entendidos em suas raízes de fragilização da masculinidade no capitalismo global. Acreditamos no mesmo, por isso a resposta política dos jovens na Cúpula do Clima será provocativa para o poder patriarcal das negociações oficiais: em vários cantos do mundo, movimentos antisistêmicos marcharão em passeatas com linguagens complexas à crise climática. Não se renderão à resiliência da sobrevivência.

Debora Diniz é antropóloga brasileira, pesquisadora da Universidade de Brown.

Giselle Carino é argentina, cientista política, diretora da IPPF/WHR. 

Fonte: ElPaísBR

Ideologia de Gênero – Dráuzio Varella

Ideologia de Gênero – Dráuzio Varella

Ideologia de gênero | Artigo

Ideologia de gênero é um termo inventado por preconceituosos que não aceitam a diversidade do comportamento sexual humano.

Mal começamos a entender a diversidade sexual humana, vozes medievais emergiram das catacumbas para inventar a tal “ideologia de gênero”.

Como nunca vi esse termo mencionado em artigos científicos, nem nos livros de Psicologia ou de qualquer ramo da Biologia, fico confuso.

Suponho que se refiram a algum conjunto de ideias reunidas por gente imoral, para convencer crianças e adolescentes a adotar comportamentos homossexuais. Será que devo a heterossexualidade à inexistência dessa malfadada ideologia, nos meus tempos escolares? Caso existisse, eu estaria casado com homem?

Embora disfarcem, o que esses moralistas de botequim defendem é a repressão do comportamento homossexual que, sei lá por que tormentos psicológicos, lhes causa tamanho horror.

Para contextualizar a coluna de hoje, leitor, não falarei de aspectos comportamentais ou culturais, resumirei apenas alguns fenômenos biológicos ligados à sexualidade, uma vez que a diferenciação sexual é fenômeno de altíssima complexidade, em que estão envolvidos fatores hormonais, genéticos e celulares.

Até a quinta semana de gestação, o embrião é assexuado. Só a partir da sexta semana é que as gônadas começam a se diferenciar. Se houver desenvolvimento de ovários, eles secretarão predominantemente estrogênios; se forem testículos, a produção predominante será de testosterona. Digo predominante, porque pelo resto da vida homens também produzirão estrogênios e, mulheres, testosterona, embora em pequenas quantidades.

Variações nesse delicado equilíbrio hormonal modificam os caracteres sexuais secundários, a anatomia dos genitais e o comportamento sexual.

Nos dias assustadores em que vivemos, em que os boçais se orgulham das idiotices que vomitam com ares de sabedoria, vários demagogos se apropriaram do preconceito social, para criar a tal “ideologia de gênero”, com o pretexto de defender a integridade da família brasileira.

Por outro lado, o conceito de que o sexo seria definido pela presença ou ausência do cromossomo Y é uma simplificação. Muitas vezes, os cromossomos sexuais não se distribuem igualmente entre as células do embrião. Da desigualdade, resultam homens com células XX em alguns órgãos e mulheres com cromossomos XY.

Talvez você não saiba, caríssima leitora, que fetos masculinos liberam células-tronco XY que cruzarão a placenta e se alojarão até no cérebro de suas mães, para sempre.

Quando a genética é levada em conta, as fronteiras sexuais ficam ainda mais nebulosas. Há dezenas de genes envolvidos na anatomia e na fisiologia sexual. A multiplicidade de interações entre os dominantes e os recessivos torna mais complexa a diversidade sexual existente entre homens, bem como entre mulheres, e faz surgir áreas de intersecção que tornam problemático para algumas pessoas definir sua sexualidade dentro dos limites impostos pela ordem social.

Como deveríamos, então, definir o sexo de cada indivíduo? Pelo binário dos cromossomos XX e XY? Pelos genes, pelos hormônios ou pela anatomia genital? O que fazer quando essas características se contrapõem?

Segundo Eric Vilain, diretor do Centro de Biologia Baseada em Gênero, na Universidade da Califórnia: “Na falta de parâmetros biológicos, se você quiser saber o sexo de uma pessoa, o melhor é perguntar para ela.”

Esses conhecimentos passam ao largo de grande parte da população. Para muitos, a homossexualidade é uma opção de gente sem vergonha. Repetem esse absurdo porque são ignorantes, sem a menor noção das raízes biológicas e comportamentais da sexualidade.

O argumento mais elaborado que conseguem usar como justificativa, é o de que a homossexualidade não é fenômeno natural. Outra estupidez: relações homossexuais têm sido documentadas pelos etologistas em todas as espécies de mamíferos, e até nas aves, únicos dinossauros que sobreviveram à catástrofe de 62 milhões de anos atrás.

Assim como a heterossexualidade, a homossexualidade se impõe. Não é nem pode ser questão de escolha. É possível controlar o comportamento, mas o desejo sexual é água morro abaixo.

Nos dias assustadores em que vivemos, em que os boçais se orgulham das idiotices que vomitam com ares de sabedoria, vários demagogos se apropriaram do preconceito social, para criar a tal “ideologia de gênero”, com o pretexto de defender a integridade da família brasileira. Partem do princípio que assim ganharão mais votos, uma vez que os iletrados são maioria num país de baixa escolaridade, infelizmente.

Mandar recolher livros e disputar a primazia do combate a essa ideologia cretina e sem sentido, é apenas uma demonstração de arrogância preconceituosa tão a gosto dos pobres de espírito.

Drauzio Varella é médico cancerologista e escritor. Foi um dos pioneiros no tratamento da aids no Brasil. Entre seus livros de maior sucesso estão Estação Carandiru, Por um Fio e O Médico Doente.

Fonte: Dráuzio Varella

Setembro Amarelo

Como o uso excessivo do celular afeta a saúde

Como o uso excessivo do celular afeta a saúde

Dr. Maurício Marteleto  

Doenças causadas pelo uso de aparelhos eletrônicos não é algo que cause surpresa na comunidade médica. Foi assim com o rádio e a televisão no passado e com os microcomputadores nas décadas de 80 e 90, por exemplo.

O vilão da vez é o celular: são bilhões de aparelhos utilizados diariamente nos últimos 10 anos. Já é possível enumerar uma série de condições patológicas as quais podemos atribuir quase que exclusivamente ao excesso do uso da tecnologia.

Do ponto de vista puramente ortopédico, é possível antever uma série de problemas, que vão desde hérnias de disco causadas por má postura, até as não menos graves tendinites nos punhos, mãos e compressões de nervos periféricos.

tendinite é fácil de entender. Muito esforço ou tempo prolongado de uso do smartphone, postura ruim, cifótica, cabeça e tronco fletidos podem estar associados à alterações dos plexos e vias do sistema nervoso autônomo (aquele que age de forma independente da vontade do indivíduo e governa funções vitais como batimento cardíaco, tônus vascular, suor, funções viscerais, secreção de alguns hormônios, vontade de urinar, evacuar etc.)

O esforço repetitivo gerado pelo uso excessivo do celular expõe células e tecidos, que normalmente estariam “escondidos” da ação do sistema imunológico, promovendo inflamação. Isso acontece ou por um defeito/imaturidade do sistema imune, que acaba por produzir anticorpos contra o próprio organismo no caso das doenças autoimunes, ou por lesão mecânica das delicadas estruturas neurotendíneas.

Em alguns casos, a inflamação e o inchaço nos punhos e mãos poderá causar compressão de nervos de maior calibre, promovendo a síndrome do túnel do carpo (STC), que pode causar a perda de sensibilidade dos dedos.

À medida que avançamos no conhecimento das doenças provocadas pelo uso do smartphone, entendemos que o mecanismo que causa a doença é muitas vezes semelhante, cumulativo e suas consequências podem ser graves. Felizmente para muitos, as alterações funcionais provocadas por essas dependências comportamentais podem, se tratadas corretamente no início, ser resolvidas por intermédio da cinesioterapia (terapia com movimentos para reabilitar áreas comprometidas do corpo) ou por procedimentos e medicamentos apropriados.

O problema é quando a pessoa só percebe a situação como mais ou menos grave tardiamente. Por isso, o ideal é prevenir a doença com medidas simples, como restringir o tempo de uso do aparelho. Falar até meia hora por dia é considerado seguro, mas já há trabalhos mostrando que o uso de celulares por mais de 30 minutos/dia aumenta a chance de desenvolvimento de alguns tipos de gliomas, que são tumores do sistema nervoso central.

Se isso já não fosse complicado o suficiente, existe o problema das lesões por esforços repetitivos, microfissuras nos tendões por excesso de esforço, que provocam inflamação e dor nas articulações, além do problema da radiação emitida pelo aparelho, que deve ficar a pelo menos 20 cm do corpo em situação de repouso ?stand by?.

Manter as rédeas e impor limites a si mesmo é uma estratégia que se torna complicada à medida em que o uso de celular e smartphones se torna imprescindível até para saber se as crianças estão prontas e aguardando no ponto para o transporte escolar, se levaram o lanche pra escola, entre outros lembretes – mas é fundamental.

A substituição de atividades sedentárias por atividades físicas pode ser uma boa estratégia de sucesso para isso. E, no caso das crianças, considero essencial explicar a elas o que o uso excessivo de smartphones pode causar. A partir daí, deixe que elas mesmas mudem suas rotinas, que interajam melhor presencialmente e adotem as tecnologias modernas somente para situações específicas. Portanto, pondere o seguinte: se há inúmeras razões para usar o celular, há também inúmeras razões para moderar seu uso.

Fonte: MSN

Manifesto para a periferia brasileira


SP 16/10/2018 Manifesto para a periferia brasileira

Nas periferias estão grande parte das populações carentes de todas as cidades brasileiras. Lá faltam escolas, hospitais e segurança. Já foi pior em tempos de ditadura de 1964 a 1984. Muitos lutaram e morreram, perseguidos e fuzilados, além de torturados. Alguns sobreviveram para nos contar a História. Estudamos e aprendemos.

Muitos que hoje votam desconhecem este lado sujo da História e por isso pensam em votar no candidato que oferece violência, ódio e morte para solucionar nossos problemas sociais, defende combate à corrupção, mas furtou e ameaçou a ex-, furtou parte do dinheiro da ex-funcionária Wal do açaí, recebeu propina da JBS, repassou ao partido e recebeu de volta, ameaçou assassinar opositores, foi preconceituoso contra negros, índios, mulheres e LGBTs. Defende também a entrega das riquezas nacionais, vota contra direitos trabalhistas e previdenciários, espalha inúmeras mentiras sobre o candidato Haddad. Foge dos debates porque não tem boas propostas de governo para Educação, Saúde, Trabalho e outros temas.

Periferia, quem quer Direitos, Educação, Saúde, Trabalho, Moradia, Lazer, Amor, Alegria e Vida não vota nele porque o alvo das loucuras dele são os moradores da Periferia porque ele disse textualmente que vai mudar a Educação para pior. Periferia, ele é inimigo nosso. Somos quase todos periferia, trabalhadores e lutadores. Quem tem inteligência e vergonha na cara vota contra esse traíra, mentiroso e covarde candidato.

Periferia que quer crescer, viver, ser feliz tem que ir pra luta votando no candidato que combate as loucuras do outro. Periferia forte vota no Amor, na Esperança, no Trabalho, na Educação, na Saúde.

Votamos Haddad 13.

Profsp

Este texto foi escrito por ocasião das Eleições para Presidente deste ano.

Quatro mitos sobre o autismo

Quatro mitos sobre o autismo

A história do autismo é, em parte, uma história de mitos: de mitos consagrados como fatos por médicos, de mitos que formatam atitudes sociais em relação a um distúrbio altamente complexo, e, por fim, de mitos desmascarados por estudos mais aprofundados.

Esse ciclo vem se repetindo ao longo das décadas, normalmente com efeitos devastadores nas vidas de pessoas com autismo e de suas famílias.

Um dos primeiros mitos foi propagado por um dos homens a quem se atribui a identificação do autismo, o psiquiatra infantil Leo Kanner. Ele foi uma figura polêmica, que se enganou em relação a vários outros aspectos cruciais do distúrbio.

Em 1948, Kanner escreveu na revista Time que os pais de seus pacientes provocaram o autismo no filhos ao não oferecerem a eles amor e estímulos. A imagem da “mãe-geladeira” se provou indelével no imaginário público e, como consequência, duas gerações de crianças autistas foram internadas em instituições e submetidas a punições severas, aprisionamento e “tratamentos” experimentais brutais.

Hoje, sabemos que não há provas que sustentem as afirmações de Kanner sobre as mães. Mas vários outros mitos perniciosos sobre o autismo continuam fortes, incentivando a má distribuição de escassos financiamentos para pesquisas científicas, contribuindo para a formulação de diretrizes públicas equivocadas, consumindo os recursos das famílias e distorcendo a percepção da sociedade em relação aos autistas.

Aqui estão quatro dos mitos mais prejudiciais que precisam desesperadamente ser derrubados:

Leia também: Café aberto para filho autista muda vida de deficientes filipinos

Mito 1: Antigamente, o autismo era raro, mas, hoje, é comum

Fóruns na internet usados por pais de autistas estão lotados de memes que apresentam terríveis variações sobre o tema: em 1970, a prevalência estimada do autismo entre crianças de idade escolar nos Estados Unidos era de 1 em cada 10 mil. Hoje, é de 1 em cada 68.

Alguns pais e ativistas erradamente culpam certas vacinas, principalmente após a série de estudos de caso realizada por Andrew Wakefield em 1998 e que estabeleceria uma relação entre a vacina tríplice viral e uma hipotética doença dos intestinos batizada de enterocolite autística.

Como a tese não tinha provas suficientes, outros co-autores se retrataram sobre o estudo, e a revista científica que o publicou o retirou de seus anais.

Na realidade, o principal fator para o dramático salto na prevalência do autismo nas últimas décadas é o fato de que mais crianças, adolescentes e adultos no espectro agora conseguem receber um diagnóstico.

Até os anos 1980, não havia um “espectro do autismo”: o distúrbio era definido por características bem rígidas e era tido como raro. Por causa disso, até então, muitas famílias tinham que levar seus filhos a nove ou dez especialistas até conseguirem um diagnóstico de autismo.

E isso era muito caro para famílias de baixa renda ou afro-americanas nos Estados Unidos. As meninas com autismo foram praticamente invisíveis para a psiquiatria até o fim do século passado.

Curiosamente, foi a mãe de uma menina autista e com deficiências profundas – a falecida psiquiatra britânica Lorna Wing – quem finalmente retirou a mão de ferro de Kanner sobre o escopo do diagnóstico.

No fim dos anos 1980, Wing introduziu o conceito que depois foi conhecido como “espectro do autismo” e passou a incluir nele a síndrome de Asperger. Suas teorias se tornaram bastante populares entre médicos, porque refletiam a gama diversa de seus pacientes melhor do que os parâmetros rígidos de Kanner.

Wing e seus colegas também esclareceram que o autismo é um deficiência do desenvolvimento que dura toda a vida e não uma psicose da primeira infância, como Kanner divulgou.

Para ela, o aumento na prevalência nas últimas décadas se deve apenas a essa mudança no diagnóstico.

Leia também: Por que mentimos para nós mesmos?

Mito 2: Pessoas com autismo não sentem empatia

Em gerações passadas, pessoas com autismo eram frequentemente retratadas na mídia e na literatura médica como autômatos sem emoções, incapazes de sentir compaixão. Na realidade, esses pacientes frequentemente se preocupam com os sentimentos daqueles que os cercam, muitas vezes a um nível paralisante.

O problema é que eles têm dificuldades em decodificar os sinais sociais – as ligeiras mudanças na expressão facial, na linguagem corporal e no tom de voz que nós facilmente percebemos.

A noção de que autistas não sentem empatia tem sido usada para perpetuar inúmeras injustiças cruéis com eles, inclusive a afirmação de que vários autores de chacinas sofreriam do distúrbio.

Tanto autistas como não autistas têm dificuldades em ver o mundo sob perspectiva dos outros. Para as crianças no espectro, o uso de “histórias sociais” – representações visuais de interações pessoais – pode acelerar o aprendizado.

Quem não sofre de autismo pode entender melhor a condição passando mais tempo com estas pessoas em ambientes não clínicos e onde não haja uma sobrecarga de estímulos. A empatia, afinal, é uma via de mão dupla.

Leia também: O homem que não consegue sentir emoções

Mito 3: Crianças autistas precisam ser tratadas até serem ‘indistinguíveis de seus colegas’

Nos anos 1980, o psicólogo Ole Ivar Lovaas, da Universidade da Califórnia em Los Angeles, eletrificou a comunidade de pais de autistas ao dizer que as crianças poderiam ser tornadas “indistinguíveis” ao serem submetidas a anos de intensa modificação comportamental.

O método que ele desenvolveu, conhecido como Análise de Comportamento Aplicada, ainda é a intervenção mais usada logo após o diagnóstico do autismo.

Mas há vários problemas com essa abordagem, principalmente o fato de ela requisitar a participação de todas as pessoas importantes para o paciente a todo momento, algo impossível para muitas famílias, do ponto de vista financeiro e logístico.

Lovaas também exagerou ao relatar o sucesso de suas intervenções. Alguns adultos autistas que foram submetidos a seu método concluíram que, ao serem obrigados a agir como seus colegas, acabaram sofrendo mais traumas e ansiedades que carregaram pelo resto da vida.

Para Barry Prizant, co-criador de um novo modelo educacional para crianças com autismo, o problema com abordagens como a de Lovaas é que elas “tratam a pessoa como um problema a ser resolvido e não como um indivíduo que precisa ser compreendido”.

Ao se perguntarem por que uma criança autista está se comportando de uma certa maneira, pais e médicos aprendem a identificar a fonte dessa confusão emocional e podem melhorar o entorno. Isso resulta em uma mudança de comportamento mais duradoura, assim como um entendimento mais profundo das qualidades e desafios daquela criança.

Mito 4: Estamos diagnosticando crianças bizarras com um distúrbio da moda

A ideia mais subversiva embutida no conceito de espectro do autismo, introduzido por Lorna Wing, é a de que indivíduos não autistas também possuem características que ajudam a definir o autismo, em diferentes níveis.

Dizemos que autistas estão o tempo todo “procurando estímulos”, enquanto os não autistas são “irrequietos”. Os autistas têm “interesses especiais” e “obsessões”, mas não autistas têm “hobbies” e “paixões”.

Os autistas sofrem de “sensibilidades sensoriais”, mas não autistas podem dizer que não suportam usar roupa sintética. Ou seja, há uma enorme área cinza entre o autismo e o não-autismo.

Para os cientistas, as pessoas que vivem nessa área incerta se enquadram no fenótipo amplo do autismo. Mas, na maior parte do tempo, elas são apenas consideradas excêntricas.

Diagnosticar à distância alguns geeks famosos se tornou uma espécie de esporte coletivo. Steve Jobs, Mark Zuckerberg, Lionel Messi, entre tantos outros, já foram objeto de questionamentos.

No entanto, se bilionários e personalidades como essas estão no espectro do autismo, por que uma quantidade desproporcional de adultos autistas tem dificuldades para se manter financeiramente? Por que as famílias dizem precisar de mais recursos para seus filhos?

O autismo é uma deficiência – aliás, uma deficiência profunda e penetrante que afeta quase todos os aspectos da vida. E mudar para acomodar a deficiência é algo que a sociedade sabe fazer.

*Steve Silberman é jornalista e autor de NeuroTribes: The Legacy of Autism and the Future of Neurodiversity (“Neurotribos: O legado do autismo e o futuro da neurodiversidade”).

Fonte: BBC/Brasil